O Globo, n 32.379, 01/04/2022. Economia, p. 14
Desemprego é o menor desde 2016, mas renda cai
Raphaela Ribas
Taxa ficou em 11,2%, porém a recuperação do mercado de trabalho perde fôlego. País ainda tem 12 milhões de pessoas em busca de uma vaga. Com inflação alta, salário está 8,8% mais baixo que há um ano
A taxa de desemprego no Brasil ficou em 11,2% no trimestre encerrado em fevereiro, a menor desde 2016, no piso das expectativas do mercado. Ainda assim, há 12 milhões de brasileiros desempregados. O resultado representa uma leve melhora em relação ao trimestre encerrado em novembro, quando a taxa era de 11,6%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada ontem pelo IBGE.
Mesmo com a queda do desemprego, o rendimento médio real despencou 8,8% na comparação anual. O brasileiro ganhava, em média, R$ 2.511 em fevereiro. É o menor rendimento da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012, nos trimestres encerrados em fevereiro.
O alívio no mercado de trabalho perdeu fôlego. O número total de ocupados no país ficou em 95,2 milhões, estável em relação ao trimestre anterior. De acordo com a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy, a estabilidade do contingente de ocupados pode estar retomando um padrão sazonal anterior à pandemia: no início do ano havia retração, pelo desligamento de trabalhadores temporários contratados no fim do ano.
MENOS FÔLEGO
Adriana também atribui a estabilidade à queda de 1,9% no número de trabalhadores por conta própria, que vinha crescendo nos últimos meses. São 488 mil pessoas a menos frente a novembro.
— Essa retração foi bem disseminada entre as atividades como comércio, construção e alojamento e alimentação (hotéis e restaurantes). Como esse grupo representa uma parte significativa dos trabalhadores informais, houve um reflexo direto na diminuição da informalidade no trimestre —analisa.
Mas o emprego com carteira assinada compensou.
Houve alta de 1,1%, o que representou mais 371 mil trabalhadores com emprego formal no trimestre.
Economistas destacam que a recuperação do mercado de trabalho deve perder força este ano diante da inflação persistente, juros altos, perspectiva de baixo crescimento, além de impactos na economia global da guerra na Ucrânia.
Para Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, ainda que a taxa de desemprego tenha reduzido, o número de pessoas sem emprego é muito elevado. E, na avaliação dele, a taxa deve permanecer na faixa dos 11% durante todo ano.
—Desde 2021, com o avanço da vacinação, vemos a recuperação de postos de trabalho, mas, geralmente, são informais, que pagam os menores salários. A alta informalidade puxa a renda média para baixo, o que explica ela estar em patamares mínimos.
MENOS PROCURA POR VAGA
O coordenador de pesquisa de comércio e serviços da FGV, Rodolpho Tobler, observa que os dados abrangem o período em que a Ômicron se alastrava e as pessoas ficaram em casa, diminuindo a procura por emprego e provocando a queda na taxa:
— A expectativa para o restante do ano é próxima do que estamos vendo agora. É um ano de PIB baixo, eleições, guerra. O mercado de trabalho só vai melhorar com o crescimento econômico.
O pesquisador da IDados, Bruno Ottoni, lembra que voltar ao nível pré-pandemia não é necessariamente bom. Em fevereiro de 2020, o desemprego estava em 11,75% e, em 2019, 12,5%. Ottoni destaca, ainda, o crescimento da parcela de trabalhadores por conta própria quando se compara com o ano passado: ela subiu de 23 milhões para 25 milhões, mesmo com a queda recente.