Valor Econômico, v. 23. n. 5697, 25 a 27/02/2023, Brasil, A3
4º tri tem baixa e ‘segura’ PIB do ano em 3%, dizem analistas
Anaïs Fernandes e Marta Watanabe
Após três trimestres seguidos de crescimento no ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve ter registrado ligeira queda entre outubro e dezembro de 2022, sem comprometer o desempenho surpreendente da atividade esperado para o ano como um todo, mas indicando que 2023 tratá mais desafios.
Pesquisa do Valor com 75 instituições financeiras e consultorias indica que a projeção mediana é de contração de 0,1% do PIB no quatro trimestre de 2022, ante o terceiro. As estimativas variam de -0,9% a 0,6%. Em relação ao quarto trimestre de 2021, por sua vez, é esperada alta mediana de 2,3%, a partir de 73 projeções.
Para 2022, a mediana de 79 previsões indica crescimento de 3% do PIB, vindo de uma recuperação de 5% em 2021 depois do choque da pandemia no ano anterior. O intervalo das projeções é relativamente pequeno, de 2,5% a 3,4%.
Em relação a 2023, porém, essa variação das estimativas é muito maior. Elas vão desde PIB estagnado até altas de 1,6%, com a mediana de 77 instituições em 0,8%.
Pelo lado da oferta, o PIB do último trimestre de 2022 deve ter continuado com base em serviços, ainda que a mediana das expectativas aponte desaceleração da alta para 0,2%, vindo de 1,1% no terceiro trimestre. Com isso, serviços devem ter subido 4,1% em 2022, após recuperação de 5,2% em 2021.
Na indústria, cuja expectativa mediana é de queda de 0,4% no quarto trimestre de 2022, ante o terceiro, o comportamento é “bastante difuso”, segundo Rafael Pacheco, economista da Guide. “Enquanto a produção de bens duráveis e não duráveis deve ter tido desempenho mais fraco, a indústria extrativa deve ter ido melhor, com a exportação.” Em 2022, a indústria ainda deve ter sustentado um crescimento de 1,6%, mas depois de ter subido 4,8% em 2021.
Pelo lado da demanda, o que chama a atenção no quarto trimestre é exatamente a contribuição do setor externo. A estimativa mediana é que a exportação tenha crescido 2,8% no período, em relação ao terceiro trimestre, enquanto a importação deve cair 3,9%. No ano, a alta da exportação deve ter sido de 4,8%, para 0,9% da importação.
A contribuição externa não deve vir, portanto, pelo “motivo bom”, que seria um crescimento de ambos os vetores, mas com as importações avançando mais, diz Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco Alfa. “Quanto mais a economia brasileira cresce, mais teria de importar. Mas não será assim. Isso sustenta a ideia de que a economia brasileira ficou, na melhor das hipóteses, estagnada no quarto trimestre”, afirma Leal, que tem projeção para o PIB do período em linha com a mediana.
Leal diz ver quatro fatores de crescimento em 2022 que, em geral, não devem se repetir da mesma forma neste ano e que justificam sua expectativa de que a atividade brasileira passará de alta de 3% em 2022 para 0,9% em 2023.
O início de 2022 viu um aumento muito grande nos preços das commodities, acelerado pela guerra na Ucrânia. O fenômeno até pode se repetir no início de 2023, ressalva Leal, porque a safra deste ano deve renovar recorde. “Devemos ter outro primeiro trimestre salvo pela agricultura. O problema é que ela é em torno de 8% do PIB, não faz tudo sozinha.”
Em 2022 o PIB também contou com o efeito da reabertura da economia pós-covid, principalmente em serviços, com medidas do governo como a liberação de saques do FGTS e o aumento do Auxílio Brasil para R$ 600 e com melhora muito forte do mercado de trabalho. “Pelo lado da demanda, o impulso do crescimento foi claramente por causa do consumo”, diz Leal. A mediana das projeções dos economistas indica alta de 4% no consumo das famílias em 2022, mas de apenas 0,9% em 2023.
Para este ano, o ganho pela reabertura dos serviços já se esgotou, a tendência do mercado de trabalho é de desaceleração e o espaço para impulso adicional por parte do governo é limitado, avalia Leal. “É preciso lembrar que o consumidor está com quase 30% da sua renda comprometida com dívidas, os juros estão extremamente altos. Não vejo o consumo sustentando o PIB como em 2022”, diz.
O setor externo também deve dar contribuição mais modesta em 2023, em meio à previsão de desaceleração da economia global. A expectativa mediana é que as importações avancem, em relação a 2022, para crescimento de 1,3%, mas as exportações devem desacelerar para 2,5%. As altas de preço de commodities, que beneficiaram as exportações brasileiras, devem se enfraquecer ao menos no primeiro semestre deste ano, com queda principalmente do petróleo, diz Pacheco, da Guide.
Uma incógnita é a China, principal destino da exportação brasileira e cuja atividade tem surpreendido após deixar a política de “covid zero”. A Guide esperava alta de 3% para o PIB do país em 2023. Com os dados recentes, a projeção ficou mais otimista, mas ainda abaixo de 5%, segundo Pacheco.
Pelo lado da oferta, a indústria deve sentir os juros pesarem, afirma Pacheco. A mediana do Valor indica crescimento de apenas 0,1%, para o setor neste ano. A maior dúvida, segundo ele, está nos serviços, que devem desacelerar para uma alta de 0,8% em 2023, de acordo com a mediana das projeções “A expectativa é de desaceleração já no começo deste ano, embora haja um componente inercial forte em razão do aumento do salário mínimo e dos auxílios do governo. Mas boa parte do crescimento dos serviços foi transitória.”
Em uma ponta mais otimista das projeções para o PIB de 2023, Cecilia Machado, economista-chefe do Bocom BBM, observa que indicadores de confiança parecem sinalizar certo pessimismo na economia, mas ele ainda não estaria refletido nas informações sobre os serviços. “O mercado de trabalho continua bastante resiliente e os dados de alta frequência publicados pelos grandes bancos, como o de compras com cartão, ainda indicam um setor de serviço que também está resiliente”, afirma. Ela projeta um PIB ligeiramente acima da mediana, zerado, entre outubro e dezembro de 2022.
Com a percepção de que a atividade na virada do ano foi mais forte do que o imaginado, a Parcitas Investimentos ajustou a estimativa do PIB do quarto trimestre de queda próxima de 0,4% para a contração mediana de 0,1%. “Sondagens apontaram estoques muito altos. Pensamos que, talvez, a demanda das famílias não fosse tão forte na virada do ano, mas as pesquisas do IBGE para varejo e serviços em dezembro e dados de cartão de crédito em janeiro apontam demanda mais forte e uma virada de ano que não vai ser tão ruim”, diz o economista Vitor Martello.
Apesar disso, ele não alterou a projeção mais pessimista para o PIB de 2023, que ficaria estagnado. Além de “desaceleração do ciclo de crédito muito agressiva”, Martello diz ter dúvidas também sobre a real força do PIB agro. “Vai ser bom, mas tem um porém: olhamos o PIB pela ótica do valor adicionado e precisamos lembrar que tem um custo de produção que deve ser maior do que o do ano passado.”
Para Machado, do Bocom, há duas forças atuando na economia. “Temos uma política monetária que é um freio de mão e uma política fiscal com um pezinho no acelerador. Por enquanto, o fiscal está ajudando a sustentar os serviços, não estamos vendo os efeitos da política monetária batendo, mas isso deve ficar mais claro nos próximos trimestres”, afirma.
O Bocom BBM espera alta de 1,5% para o PIB em 2023, sendo que 0,4 ponto percentual é “herança estatística” após alta de 3% esperada para 2022. “Temos dificuldade de ver uma desaceleração tão grande da economia. Isso não significa que não vai ter, na verdade, está caminhando para isso.”
Machado nota que as políticas de estímulo do governo, seja via assistência social, seja via aumento de salário mínimo, afetam justamente a população que tem maior propensão ao consumo. Ela cita também alguma resiliência da construção civil, por exemplo, ao incorporar a anunciada retomada do programa Minha Casa Minha Vida.
A ideia, segundo Machado, é que o crescimento de 2023 seja puxado pelo primeiro trimestre, com alta de 1,1% ante os três meses imediatamente anteriores e desaceleração nos períodos seguintes. “Grande parte dos estímulos, da forma como estão sendo colocados, vai envolver construção de habitação popular e retomada de serviços de educação e saúde, o que pode ser mais gradual.”
Com uma visão de que o setor externo e consumo interno serão fracos, a Guide espera avanço de 0,5% do PIB em 2023, após alta estimada para 2022 de 3,1%. Na projeção de crescimento do Alfa de 0,9% para o PIB em 2023, praticamente 0,7 ponto percentual é herança estatística e 0,2 ponto vem da agricultura, segundo Leal. “O resto da economia vai estar praticamente zerada”, afirma. “Eu colocaria, inclusive, um viés de baixa para esse 0,9%, porque acho que a gente vai ter problema com crédito nesse primeiro semestre”, diz Leal.