Valor Econômico, v. 23. n. 5698, 28/02/2023, Brasil, A6
Sedentarismo de jovens já requer política pública
 Rafael Vazquez

 

Aos 16 anos, Matheus de Paula Vasconcelos viajou para a praia com a família. Depois de ser fotografado por seus tios, olhou a imagem na tela do celular e ficou espantado. “Fazia tempo que não me via em uma foto de corpo inteiro e não me reconheci”, confessa. Ele percebeu naquele momento que a sua rotina de estudos, dentro de casa, somado ao uso excessivo de aparelhos eletrônicos precisava ser reequilibrada. Quando procurou orientação médica, os exames mostraram colesterol alto e estágio de pré-diabetes. 

Hoje, aos 18 anos, o estudante de projetos mecânicos pesa 30 quilos a menos após ter iniciado tratamento e rotina de exercícios físicos para não ter a saúde comprometida na vida adulta. 

Ao observar o caso de Matheus e uma série de outros parecidos, a pediatra Silvana Vertematti, responsável pelo ambulatório de adolescentes com foco em atividade física do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) de São Paulo, resolveu contabilizar a incidência de sedentarismo infanto-juvenil. Notou aumento preocupante no número de jovens fisicamente inativos. Só no HSPE, dos atendidos atualmente com idade entre 12 e 18 anos, 86% são considerados sedentários. Ou seja, de cada nove pacientes da pediatria, sete não praticam atividade física. 

Dados do Ministério da Saúde organizados a pedido do Valor pela LifesHub, empresa especializada em inteligência para o setor da saúde, mostram que o número de crianças e adolescentes fora do peso ideal está em tendência de crescimento no Brasil. De 2012 a 2022, a porcentagem de jovens de 10 a 19 anos diagnosticados com sobrepeso, obesidade ou obesidade grave aumentou de 21% para 31%. Entre 5 e 9 anos, a proporção foi de 26,7% para 31,4% (ver quadro). 

“Adolescentes que não se exercitam, se mantiverem a inatividade em longo prazo, se tornarão pessoas idosas fracas, pouco ágeis e com baixa capacidade e habilidade físicas. Também terão de enfrentar doenças como diabetes, hipertensão e outras que podem se tornar permanentes com a falta de exercícios e estímulos físicos”, afirma Vertematti. 

Segundo a pediatra, em muitos casos, o sedentarismo vem desde a infância, o que é pior, pois a pessoa será um adulto cujo corpo não terá criado memória motora. “Quanto mais ativo a gente for na infância, melhor. Um adulto pode ficar um tempo sem fazer exercícios, mas, se voltar a praticar atividade física, voltará a ter boas habilidades porque o corpo criou essa memória. É como ler. Agora, se as crianças estão deixando de desenvolver isso, como vai ser lá na frente?” 

Essa preocupação é o que começou a ser estudada internacionalmente como “analfabetismo físico infantil”, problema que pode sobrecarregar o sistema público de saúde caso não seja revertido. Uma criança sedentária, explica a pediatra, tem muito mais chance de desenvolver doenças crônicas ainda na infância ou ao longo da vida adulta. “Quadros como obesidade, diabetes, hipertensão e cardiopatias são decorrentes de uma vida sedentária, que cada vez mais está começando logo na infância”, diz. 

Segundo o Atlas Mundial da Obesidade e a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil estará na quinta posição no ranking de países com o maior número de crianças e adolescentes com obesidade em 2030, com apenas 2% de chance de reverter essa situação se nada for feito. Outro dado da OMS, de 2019, aponta que 78% das crianças brasileiras não fazem o mínimo de movimento recomendado, de pelo menos uma hora por dia. Os relatos dos especialistas e dos próprios jovens pacientes indicam que a pandemia piorou o quadro. 

Daniele Martins conta que, devido às restrições e receios impostos pela covid-19, não conseguiu levar o filho Gabriel, de 16 anos, ao pediatra durante o período mais conturbado da pandemia entre 2020 e 2022. Quando o levou ao HSPE e fez o exame solicitado, veio o diagnóstico de colesterol alto. A alternativa foi matriculá-lo em aulas de boxe, na esperança de reverter o quadro e mitigar efeitos do sedentarismo precoce na vida adulta. 

“Ele [Gabriel] não tem alimentação saudável. Não gosta de verduras e legumes. É muito carnívoro. Aí foi engordando desde os 14 anos. Não pratica esportes porque não tinha quem o levasse. Veio a pandemia, todos fomos obrigados a ficar em casa e ele ficou muito no computador. De lá para cá, a coisa mais difícil é tirá-lo de casa. Não quer sair nem para dar uma volta e prefere ficar no computador”, conta a mãe. 

Pediatras e profissionais de educação física observam que dispositivos eletrônicos como um desafio a ser superado na hora de incentivar crianças e adolescentes à prática de exercícios físicos. “Estamos observando as habilidades motoras [dos alunos]. Obviamente que cada corpo é um corpo e nem todo mundo é igual, mas a gente vem percebendo que a quantidade de alunos mais hábeis fisicamente está diminuindo. E a tecnologia é um fator importante nessa mudança de comportamento”, comenta Wellington Vieira Pereira, professor de educação física e coordenador de esportes na FIAP School, em São Paulo. “A frequência com que os alunos caem por falta de equilíbrio ou noção espacial está absurda.” 

Pereira revela que é a partir do 8º ano do ensino fundamental, quando os estudantes estão, em geral, com 13 anos, que os professores de educação física começam a ter mais dificuldades para incentivar os exercícios. “Até o 6º ano ou 7º ano, é difícil ter alunos que pedem para não fazer as aulas. A partir do 8º começa a aumentar com a entrega de atestados e relatos de indisposição, por exemplo”, diz. Segundo ele, na FIAP School, escola de ensino fundamental e médio ligada à Faculdade de Informática e Administração Paulista, a estratégia tem sido adaptar às aulas a alguns jogos eletrônicos. “Tentamos não brigar com a tecnologia, e sim incorporá-la de alguma forma. Se a criança gosta de videogame, vamos tentar ‘gamificar’ a aula, trazer um jogo que eles gostem que faça parte da dinâmica da aula.” 

A OMS e os pediatras orientam os pais a limitarem o acesso de crianças e adolescentes a equipamentos eletrônicos. A recomendação do organismo é a de que, dos 5 aos 17 anos, não haja exposição exclusivamente a telas por mais de duas horas ao dia. 

“Crianças que não estão praticando atividades físicas por ao menos 60 minutos por dia, seja brincando de forma lúdica, seja fazendo esportes, estão perdendo a oportunidade de desenvolver habilidades físicas, ficando cada vez mais lentas e entrando nesse ciclo vicioso das facilidades que a sociedade traz em relação ao tempo de telas e entretenimento eletrônico, o que prejudica a parte cognitiva e a física, sem falar nas questões relacionais”, diz Vertematti. 

Para Alberto Ogata, doutor em saúde coletiva e professor do FGV-Saúde, o problema precisará ser observado com mais atenção pelos governos e combatido por meio de políticas públicas. “Já foi demonstrada a importância das políticas públicas que envolvam as crianças e adolescentes estimulando hábitos saudáveis em casa, na escola e na comunidade. Neste contexto, não se trata apenas de escolhas individuais, mas há a influência cada vez mais forte dos determinantes sociais de saúde, ou seja, como as pessoas moram, como se deslocam, qual é o acesso a alimentos saudáveis e qual é a segurança para se deslocar de maneira ativa”, disse. 

Ogata também destaca a importância de facilitar o acesso a alimentos saudáveis, inclusive em relação aos preços, em detrimento dos processados que, na sua visão, deveriam ter algum limite na publicidade e serem mais taxados. “Apesar da importância, a promoção de hábitos saudáveis ainda não tem a priorização desejada nas políticas públicas relacionadas à educação e saúde do adolescente”, lamenta. 

Existe o consenso de que a tecnologia ou mais especificamente o entretenimento eletrônico, resumido pela palavra “telas”, é um obstáculo atualmente para incentivar atividades físicas entre crianças e adolescentes, mas não é o único. Outros fatores que influenciam o aumento do sedentarismo infanto-juvenil é a violência urbana e, em muitos casos, o exemplo dos pais, segundo Samir Daher, diretor do serviço de medicina do exercício e do esporte do HSPE de São Paulo. 

“Gerações anteriores brincavam nas ruas. Jogavam bola, soltavam pipa. Hoje boa parte fica confinada em apartamentos ou dentro de casa. Até mesmo aquela ida ao mercado ou à padaria para comprar algo a pedido dos pais virou coisa rara por causa da violência”, destaca Daher. “A falta de espaços com sensação de segurança onde as crianças possam se movimentar de forma regular contribui.” 

O médico, que faz tratamento no HSPE de adolescentes e adultos que, segundo ele, estão chegando com doenças crônicas típicas do envelhecimento por causa da inatividade física, indica outros fatores como o consumo de alimentos industrializados e o exemplo negativo de pais e mães que tampouco praticam atividades físicas. “Pais que também são sedentários e ficam no computador o dia inteiro, quando falam para o filho sair da tela, dificilmente serão obedecidos”, diz. 

A pediatra Silvana Vertematti, explica que o processo passa por uma conscientização de toda a família. “Após o diagnóstico, fazemos o atendimento com a família explicando a necessidade e os riscos e como cada um precisa contribuir para a reversão do quadro.” 

Estatísticas da OMS mostram que um em cada quatro adultos e quatro em cada cinco adolescentes não praticam atividade física suficiente. Em nível mundial, estima-se que isso custe US$ 54 bilhões em assistência médica direta e outros US$ 14 bilhões em perda de produtividade.