Valor Econômico, v. 23. n. 5699, 01/03/2023, Brasil, A4
Petrobras reduz gasolina e diesel nas refinarias
Gabriela Ruddy, Fábio Couto e Alessandra Saraiva


A Petrobras vai reduzir, a partir de hoje (1º), os preços da gasolina e do diesel vendidos nas refinarias às distribuidoras. A estatal anunciou ontem (28) reduções de 3,93% na gasolina e de 1,95% no diesel. Com isso, o preço médio de venda da gasolina será de R$ 3,18 por litro, corte de R$ 0,13, enquanto o litro médio de diesel passa a ser de R$ 4,02 por litro, queda de R$ 0,08. 

Na visão de especialistas do setor de combustíveis, o reajuste respeitou a política de paridade com preços do mercado externo. Analistas, contudo, criticaram o momento do anúncio, que ocorreu no mesmo dia em que o governo sacramentou a retomada da cobrança de PIS/Cofins sobre a gasolina e o etanol, também ontem. 

Para o consultor e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) David Zylbersztajn, a Petrobras promoveu um realinhamento com o mercado internacional ao reajustar os combustíveis. O consultor em gerenciamento de risco da StoneX, Pedro Shinzato, diz que a decisão tem caráter técnico. 

Nas contas da StoneX, na manhã de ontem a Petrobras tinha espaço para um corte de R$ 0,11 no litro do diesel e R$ 0,20 no litro da gasolina, mas a redução foi menor do que a estimada. Shinzato afirma que os últimos reajustes da companhia têm compensado apenas de maneira parcial a diferença com o mercado internacional, tanto para aumentos quanto para reduções. 

“A Petrobras seguiu a mesma lógica de reajustes anteriores, ao repassar a diferença [com o mercado internacional] de forma mais integral na gasolina e parcial no diesel”, diz. 

Shinzato afirma que pode haver novos aumentos nas cotações internacionais nos próximos meses, sobretudo na gasolina, tendo em vista a retomada da demanda da China com o relaxamento das restrições para combater a pandemia e a chegada do verão no hemisfério Norte. 

Ele ressalta que é importante que a Petrobras continue a seguir a paridade internacional mesmo em eventuais aumentos de preços nos próximos meses, dado que hoje a companhia supre cerca de 70% da demanda nacional e é necessário garantir o atendimento do restante do mercado por outras empresas. Quando a Petrobras pratica preços abaixo do mercado externo outras empresas têm prejuízo ao importar combustíveis. 

O presidente da Associação Brasileira dos Importadores dos Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, também considerou o reajuste da Petrobras coerente com a política de preços. Araújo afirma que a queda na gasolina poderia ter sido maior, mas ressalta que a tendência desse combustível no mercado internacional é de aumento nas próximas semanas. O executivo acredita que a companhia vai continuar a seguir a política de preços alinhada ao mercado internacional. 

“É necessário fazer algo em termos de política social, para que a população não fique tão exposta a preços elevados, principalmente no diesel, que tem um impacto maior para o transporte de mercadorias e transporte público. É necessário que se faça alguma política pública, mas a Petrobras e os demais agentes do setor devem ter as rentabilidades preservadas”, diz. 

No anúncio de ontem, a Petrobras reforçou que as reduções buscaram o equilíbrio com o mercado externo. A companhia afirmou que evita repassar aos preços a volatilidade conjuntural das cotações e da taxa de câmbio, ao mesmo tempo em que busca preservar um ambiente competitivo salutar. 

Analistas, entretanto, criticaram o momento do anúncio da redução nos preços no mesmo dia da definição da nova tributação sobre a gasolina. Eles ressaltaram que a companhia já tinha espaço para fazer reduções na gasolina e no diesel há semanas. 

Para o analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman, a estatal sinalizou que mistura elementos conjunturais e estruturais ao definir os preços. Segundo Arbetman, o movimento, de caráter compensatório, leva a questionamentos sobre como ocorreriam eventuais aumentos de preços. 

“A questão é que dificilmente se veria a companhia retomando preços de mercado com a mesma celeridade com que esse movimento de queda foi feito”, diz. 

Para ele, apesar de a companhia afirmar que continua a seguir o preço de paridade de importação (PPI), pode haver maior dificuldade em continuar a acompanhar o mercado internacional. “Pode existir uma menor margem de manobra na execução do PPI, o que é muito negativo”, afirma. 

O professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio Edmar de Almeida ressalta que, apesar de a redução de preços dos combustíveis pela Petrobras ser esperada, o mercado externo está volátil. Ele afirma que, no caso de as cotações internacionais voltarem a subir, a Petrobras pode precisar aumentar os preços no mercado interno. Ontem, o barril de petróleo do tipo Brent, principal referência internacional para a commodity, fechou o dia a US$ 83,45, alta de 17,2%. “Não é garantido que os preços [da Petrobras] compensem aumento de impostos”, disse Almeida.