O Globo, n 32.380, 02/04/2022. Política, p. 05

Podemos calcula gasto de R$ 3 milhões com Moro

Julia Lindner e Bianca Gomes


Partido considera que ex-juiz deixou prejuízo com viagens, segurança e mídia. Aviso de última hora levou a corrida de dirigentes para trocar inserções de TV

O Podemos estima ter desembolsado cerca de R$ 3 milhões com a pré candidatura do ex-ministro Sergio Moro, que decidiu anteontem migrar para o União Brasil. Integrantes da legenda alegam ter sofrido um “prejuízo milionário” com o ex-juiz, além da perda de correligionários que haviam deixado a legenda, durante a janela partidária, contrariados com a presença de Moro. Da bancada original, de 11 deputados federais, quatro se desfiliaram.

Desde dezembro, Moro recebeu um salário mensal de R$ 22 mil, em valores brutos. No total, considerando o período em que ele ficou no Podemos, o ex-ministro da Justiça ganhou cerca de R$ 80 mil. O cálculo feito pela sigla inclui, por exemplo, gastos como os R$ 210 mil usados no evento de filiação de Moro, R$ 248 mil em segurança privada para o ex-ministro, R$ 110 mil em passagens e hospedagens para ele se deslocar pelo país, R$ 600 mil em pesquisas de intenção de voto, R$ 60 mil na equipe jurídica e R $70 mil com fotografia.

Em nota, Moro disse que o fundo partidário “serve para o financiamento de atividades da legenda e seus filiados, seguindo a legislação em vigor, o que foi feito em relação às despesas de pré-campanha”. Outros pré-candidatos, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT), também recebem salários das siglas. O Podemos já havia também produzido inserções televisivas com o ex-juiz, com enfoque em sua candidatura ao Palácio do Planalto. Segundo o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, a legenda decidiu impedir às pressas a veiculação das inserções, previstas para ontem, em pelo menos quatro estados: Goiás, Paraíba, Amazonas e Rio Grande do Norte. Os pedidos variavam entre a substituição ou remoção do conteúdo, a depender da antecedência para o horário agendado para exibição. Para a cúpula do partido, a movimentação em cima da hora é uma prova de que Moro não comunicou adequadamente sua intenção de migrar para outra sigla.

ÊXODO DE CANDIDATOS

A estimativa dentro do Podemos é que, dos cerca de R$ 200 milhões que o partido terá à disposição do fundo eleitoral neste ano, metade do valor seria destinado à campanha de Moro. No União Brasil, partido para onde o ex-juiz migrou, o total do fundo ultrapassa R$ 800 milhões.

Ao deixar o Podemos, Moro e aliados alegaram que a legenda não tinha estrutura para sustentar uma campanha presidencial e que o objetivo da presidente da sigla, Renata Abreu, era priorizar a eleição das bancadas no Congresso. Pela regra atual da cláusula de barreira, os partidos precisarão eleger ao menos 11 deputados federais em outubro para ter direito aos recursos do fundo partidário e ao tempo de propaganda no rádio e na TV a partir de 2023. Internamente, lideranças do Podemos consideraram que a saída de Moro foi uma “traição” ao partido, já que, além dos recursos investidos, o êxodo de parlamentares torna mais difícil a tarefa debater a cláusula de barreira.

Um dos que deixou o Podemos após a entrada de Moro foi o deputado Bacelar (BA), que desejava apoiar Lula e, por isso, migrou para o PV, sigla que aprovou federação com o PT. Também deixaram a sigla os bolsonaristas José Medeiros (MT) e Diego Garcia (PR). O deputado Roberto de Lucena (SP), que trocou a legenda pelo Republicanos, disse que o ex-juiz não conseguiu unir o Podemos em torno de sua candidatura. Ao justificar sua saída, Lucena afirmou não conseguir representar o “atual projeto político” da sigla, numa referência a Moro.

— Tenho a impressão de que (a vinda dele) não ajudou, porque de outra forma o partido estaria mais unido e maior —disse o deputado. Além de deputados, outra baixa no Podemos foi a do pré-candidato ao governo do Tocantins, Ronaldo Dimas, que decidiu se filiar ao PL após a chegada de Moro devido à ligação de seu grupo político com o presidente Jair Bolsonaro, desafeto do ex-juiz.

—Quando houve a confirmação (do Moro), isso criou uma discussão interna e tivemos que repensar a permanência —argumentou.