O Globo, n 32.380, 02/04/2022. Política, p. 06

Após crise, Garcia avalia convite do União Brasil

Ivan Martinez-Vargas


Relação do novo governador de São Paulo com João Doria ficou abalada no PSDB após a ameaça do antecessor de desistir da renúncia ao cargo, acertada há meses. O prazo para filiação partidária a tempo de disputar a eleição termina hoje

 

Na esteira do descontentamento do novo governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), com o padrinho político e antecessor, João Doria (PSDB), dirigentes do União Brasil no estado formalizaram o convite para que o titular do Palácio dos Bandeirantes deixe o tucanato e entre na sigla. O documento é assinado pelo presidente da legenda em São Paulo, Antônio de Rueda, o secretário-geral, Eugênio Zuliani e o tesoureiro, Alexandre Leite.

Os dirigentes estaduais do União Brasil citam “instabilidades políticas locais e nacionais” na carta. A alegação é uma clara referência ao movimento protagonizado por Doria de ter ameaçado desistir da candidatura presidencial, não renunciar ao governo paulista e descumprir, assim, o acordo político que tinha com Garcia, pré-candidato à reeleição.

“O presente convite se estende aos prefeitos e deputados estaduais, os quais teremos o prazer de receber. (...) Nossa essência reside na busca pela estabilidade política e democrática, bem como na união de forças em prol de uma São Paulo e um Brasil melhor”, diz a carta. “Esteja, assim, certo de que estaremos lado a lado (...) rumo ao êxito nas urnas rumo ao Palácio dos Bandeirantes”.

A relação entre Garcia e Doria ficou abalada após o vaivém do ex-governador —em um dos momentos da crise, os dois tiveram uma reunião tensa e bateram boca. Ao fim do evento de transferência de cargo na quinta-feira, aliados de Doria tentaram emplacar a versão de que a manobra de ameaçar permanecer no posto havia sido combinada com o novo governador. Quem acompanhou os embates garante que Garcia foi pego de surpresa, ficou bastante irritado e cogitou deixar o PSDB rumo ao União Brasil.

TUCANOS MINIMIZAM

Se for confirmada — o prazo para mudanças partidárias termina hoje —, a saída de Garcia tem potencial explosivo sobre o PSDB paulista e representaria um retorno às origens para o candidato. O novo governador paulista deixou o antigo DEM (agora fundido ao PSL no União Brasil), onde ficou por 27 anos, para se filiar ao PSDB em maio passado. A movimentação foi parte de acordo político com Doria para que Garcia assumisse a gestão estadual quando o governador renunciasse para disputar a Presidência.

Procurado, Garcia não comentou o assunto. Ao GLOBO, integrantes do PSDB próximos a ele minimizaram o convite e afirmaram que o governador deve permanecer onde está, mesmo desapontado com Doria.

O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Carlão Pignatari (PSDB), que esteve ontem ao lado de Garcia durante as agendas do governador em São Paulo e em São José do Rio Preto, demonstrou confiança de que a crise não terá um novo episódio.

—Não há sinalização do governador nesse sentido (de mudança). O União Brasil é um grande partido e vai apoiar a candidatura de Garcia, mas ele não deve ir para o partido —afirmou.

O episódio da ameaça de desistência já gerou reflexos concretos para Garcia, no entanto. O apresentador de TV José Luiz Datena decidiu deixar o União Brasil, onde estaria na chapa do governador, e migrar para o PSC, por onde apoiará o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas (PL), candidato do presidente Jair Bolsonaro. Ao colunista Lauro Jardim, do GLOBO, Datena disse que, diante da hesitação de Doria, “não tem mais nenhum compromisso com essa chapa”.

Fora de São Paulo, a turbulência também gerou reações. Após a ofensiva do União Brasil em direção a Garcia ser oficializada, o PSDB contra-atacou e fez um convite ao secretário-geral do União Brasil, ACM Neto, pré-candidato ao governo da Bahia — a movimentação é vista como improvável.