O Globo, n 32.380, 02/04/2022. Mundo, p. 16

Equipe da Cruz Vermelha aborta resgate em Mariupol



Organização alega falta de condições e pede que Rússia e Ucrânia garantam passagem segura; 2 mil pessoas conseguem fugir assim mesmo

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) informou ontem que sua equipe enviada para intermediar o resgate de civis na cidade ucraniana de Mariupol, sitiada pelas forças russas há mais de quatro semanas, teve que recuar no meio do caminho e voltar para Zaporíjia, a 220 quilômetros de distância, porque as condições locais tornavam impossível continuar a viagem. A organização humanitária informou que sua equipe era formada por três carros e nove pessoas, que iriam atuar como intermediários neutros e acompanhar o comboio de civis. No entanto, o comunicado do CICV afirma que “arranjos e condições impossibilitaram o prosseguimento” do grupo, sem especificar qual dos lados teria violado o acordo que garantia passagem segura ao comboio.

A equipe tentará novamente facilitar a saída de civis hoje, diz a nota. “Nossa presença dará um selo humanitário nesse movimento planejado de pessoas, dando ao comboio proteção adicional e lembrando todos os lados da natureza civil e humanitária da operação”, acrescenta o comunicado. Para isso, “as partes em conflito também precisam cumprir os acordos alcançados”. Mariupol fica no litoral do Mar de Azov, contíguo ao Mar Negro, e está cercada desde os primeiros dias da invasão russa da Ucrânia. Uma tentativa anterior da Cruz Vermelha de enviar uma equipe para intermediar a retirada de civis, no início de março, também falhou porque a rota foi considerada insegura.

A equipe da Cruz Vermelha pretendia liderar um comboio de cerca de 54 ônibus ucranianos e vários veículos particulares para fora da cidade, onde cerca de 160 mil pessoas estão sem energia e com comida limitada, segundo o governo ucraniano. A administração ucraniana de Mariupol informou que 2 mil pessoas conseguiram deixar ontem o município mesmo sem a proteção da Cruz Vermelha, informação confirmada depois pela vice-premier Irina Vereshchuk.

Moradores que já conseguiram fugir de Mariupol e ONGs que trabalham no local descreveram condições catastróficas, com civis abrigados em porões, privados de água, comida e comunicações, além de corpos espalhados pelas ruas. Antes da guerra, Mariupol tinha cerca de 400 mil habitantes. Se controlar a cidade, Moscou pode estabelecer um corredor terrestre entre a região de Donbass, no Leste da Ucrânia, onde atuam separatistas pró-Rússia, e a Península da Crimeia, no Mar Negro, anexada pelos russos em 2014.