O Globo, n 32.380, 02/04/2022. Saúde, p. 20
Covid: estudo refuta eficácia da cloroquina
Mais amplo trabalho sobre o tema mostrou que a droga não é capaz de conter agravamento da doença
A hidroxicloroquina não é eficaz na prevenção de hospitalização de pacientes com Covid-19. Essa foi a conclusão do estudo — o maior em ambiente ambulatorial produzido no mundo até o momento — feito pelo grupo Coalizão COVID-19 Brasil. O trabalho foi publicado no prestigiado periódico científico The Lancet Regional Health – Americas esta semana.
O grupo Coalizão COVID-19 Brasil avalia a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes com infecções causadas pelo coronavírus. Da iniciativa participam oito instituições de saúde, dentre as quais estão o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital Sírio-Libanês. Este é o quinto estudo publicado pela rede.
Intitulado Coalizão V, o estudo começou em 12 de maio de 2020 e terminou em 7 de julho de 2021, com a participação de 56 centros de pesquisa brasileiros.
No trabalho, os pesquisadores compararam o uso de hidroxicloroquina e de placebo em pacientes não hospitalizados com quadros leves ou moderados de Covid-19. Para participar da pesquisa, os voluntários deveriam estar com até sete dias de sintomas, apresentar alguma comorbidade que aumentasse o risco de doença grave, mas não poderiam ter arritmias cardíacas ou condições ou históricos de saúde que apontassem um risco aumentado para a condição. Por conta disso, todos foram submetidos a um eletrocardiograma antes de serem inseridos na pesquisa.
O estudo foi randomizado (ocorreu um sorteio para denominar quem receberia hidroxicloroquina e quem tomaria placebo) e duplo cego (nem os médicos nem os pacientes sabiam qual remédio estavam ingerindo).
Os pacientes tomaram a medicação por uma semana. A dose de hidroxicloroquina avaliada foi de 400 mg, a cada 12 horas, no primeiro dia, seguido de 400 mg diários durante os seis dias restantes. Após este período, os pacientes foram acompanhados por 30 dias para que os médicos avaliassem a taxa de hospitalização em decorrência do agravamento da Covid-19.
Após analisarem os dados dos 1.372 pacientes adultos, os pesquisadores concluíram que não houve diferença significativa na ocorrência de hospitalização: 6,4% dos pacientes que tomaram hidroxicloroquina foram internados, enquanto 8,3% dos que tomaram placebo também precisaram de internação hospitalar.
— Quando você olha os dados, percebe que as taxas de internação do grupo que tomou a hidroxicloroquina é menor do que o que tomou o placebo. Mas é para isso que usamos as análises estatísticas. Os cálculos mostram que essa diferença de menos de 2% não tem significância estatística, é efeito do acaso, não mostrando a eficácia da hidroxicloroquina nessa dose e nessa população para reduzir a hospitalização em 30 dias —explica Álvaro Avezum, cardiologista, pesquisador do Coalizão Covid-19 Brasil e diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.