Fim da escala 6x1 recebe elogios e críticas no Plenário do Senado
Transcrição
Representantes do governo, de municípios, de empresários e dos trabalhadores
foram ouvidos no Plenário do Senado sobre a Proposta de Emenda à Constituição
que acaba com a jornada seis por um. O texto já aprovado pela Câmara dos
Deputados reduz de 44 para 40 horas o tempo de trabalho semanal, com dois dias
de descanso, numa implementação gradual em 14 meses. O ministro-chefe da
Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, disse que o setor produtivo
vai ganhar com a mudança. (Guilherme Boulos) O impacto para a produtividade,
ele é melhor para este trabalhador que tem possibilidade de descanso. O
trabalhador com um dia por semana não terá condições sequer ter tempo pra fazer
um curso de capacitação profissional. Se se cobra melhor qualificação do trabalhador
brasileiro, que se dê um tempo para que esse trabalhador se qualifique. O
presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, vê motivações
eleitorais na votação da proposta neste momento. (Paulo Skaf) Não sei por que o
governo está pressionando tanto por celeridade. Por que essa pressa toda?
Então, deixa-se passar a eleição, tira-se a motivação eleitoral, vamos entrar
dentro da realidade, vamos deixar dentro da realidade do país, vamos discutir
com a devida profundidade, com responsabilidade, e aquilo que a maioria
decidir, muito bom. Isso é democracia. A fala de Paulo Skaf foi respondida pela
líder do governo no Senado, Teresa Leitão, do PT de Pernambuco. (senadora
Teresa Leitão) Me desculpe, doutor Paulo: a PEC foi protocolada em 2019. Não é
uma PEC boca de urna. A história das relações de trabalho, ela nos demonstra:
avanços sociais nunca significaram colapso. Sempre há o receio, o medo, que às
vezes se transforma em alarmismo. Já o senador Jaime Baggatoli, do PL de
Rondônia, acredita que a proposta vai gerar desemprego e citou a Argentina como
exemplo a seguir. (senador Jaime Baggatoli) Recentemente se aprovou na
Argentina... Houve a flexibilização: pode-se trabalhar até 12 horas por dia,
não passando das 48 horas semanais. É isso que precisamos ter pra nós
avançarmos no Brasil. O senador Rogério Carvalho, do PT de Sergipe, disse que a
redução da jornada é uma questão civilizatória. (senador Rogério Carvalho) Esse
trabalho, essas 44 horas estão reservadas para os que ganham menos, para os que
têm mais tempo de deslocamento, e menos tempo de vida, portanto. Pelo amor de
Deus, é muita insensibilidade e muita falta e muito comodismo! O líder da
oposição no Senado, Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, disse que
não é contra o fim da escala 6 por 1, desde que ela não seja imposta, mas
negociada entre patrão e empregado. (senador
Rogério Marinho) Um dos únicos pontos consensualizados por ocasião da reforma
foi justamente a questão da preponderância do que é negociado sobre o legislado
justamente para fortalecer os sindicatos laborais, que hoje, paradoxalmente,
mudaram o seu entendimento e defendem o fim da negociação coletiva. Ou o fim da
condição das pequenas empresas, porque obrigam uma espécie de vinculação a
sindicatos, inclusive de pequenos empreendedores. O presidente da Central dos
Sindicatos Brasileiros, Antonio Neto, respondeu ao senador destacando a
desigualdade da negociação entre patrão e empregado. (Antonio Neto) Se não
tiver lei, o patrão não cumpre. Entre o rico e o pobre, entre o fraco e o
forte, entre o patrão e o empregado, é a lei que liberta e a liberdade é que
escraviza. A mesma elite que anuncia o colapso do país quando o trabalhador
reivindica tempo, recebe centenas de bilhões em renúncias fiscais. E aqui cabe
dizer ao senador Rogério Marinho: sem carta de oposição. Quando trata de
renúncia fiscal, o orçamento aguenta. Mas quando o trabalhador reivindica mais
um dia de descanso e uma jornada compatível com o século XXI, anunciam o fim do
Brasil. Esse terrorismo não nos pega. O prefeito de Porto Alegre e presidente
da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos, Sebastião Melo, alertou para
possíveis impactos nos cofres públicos. (Sebastião Melo) Isso terá um custo
para os municípios de R$ 35 bilhões anual. Todo o IPTU das cidades brasileiras,
do Oiapoque ao Chuí, significa R$ 70 bilhões, anualmente. Eu estou dizendo que
metade do IPTU do Brasil vai ser o rombo dessa PEC para os serviços públicos.
Os senadores Laércio Oliveira, do PP de Sergipe, e Paulo Paim, do PT do Rio
Grande do Sul, presidiram a sessão. Da Rádio Senado, Marcio Maturana.