Valor Econômico, v. 23. n. 5699, 01/03/2023, Finanças, C3
Dívida pública tem maior resgate líquido da história
Estevão Taiar, Valor 

 

A Dívida Pública Federal (DPF) teve em janeiro deste ano o maior resgate da história, o que empurrou o colchão de gestão do endividamento público para o menor patamar em dois anos. Ainda assim, o colchão continua distante do mínimo prudencial. 

Conforme divulgado pelo Tesouro Nacional no Relatório Mensal da Dívida (RMD), a DPF teve resgate líquido de R$ 230,7 bilhões no mês passado, resultado de emissões de R$ 84,5 bilhões e resgates de R$ 315,3 bilhões. 

Em entrevista coletiva, o coordenador-geral de operações da dívida pública do Tesouro Nacional, Luis Felipe Vital, afirmou que o volume de emissões de títulos em janeiro “foi muito próximo da média de 2022”. Mas o resgate total, influenciado pela “maior torre de vencimentos prevista para [todos os meses do] ano”, foi “bastante alto”. Com isso, o resgate total alcançou o segundo maior patamar da série histórica para todos os meses, não apenas para janeiro. Já o resgate líquido foi ainda mais longe e atingiu o maior patamar da série, também para todos os meses. 

Segundo Vital, o movimento explica “a maior parte da queda da reserva de liquidez” registrada no mês passado. Usada para fazer a gestão da dívida, a reserva caiu de R$ 1,176 trilhão em dezembro para R$ 953 bilhões em janeiro. Já o índice de liquidez, que mede a quantidade de meses de vencimentos de títulos à frente cobertos pela reserva, passou de 8,4 para 7,62 no mesmo intervalo. Assim, tanto o valor bruto quanto o índice de liquidez recuaram para o menor patamar desde fevereiro de 2021. 

Mesmo assim, Vital afirmou que a reserva continua “acima do que consideramos o nível adequado para a gestão da dívida”. O mínimo prudencial para o índice de liquidez é de três meses. 

“Como tínhamos uma torre muito grande [de vencimentos em janeiro], a queda estava dentro do planejamento”, disse. 

Em relatório, o estrategista-chefe da Warren Renascença, Sergio Goldenstein, destacou que o resgate líquido de títulos registrado no mês passado “era esperado, tendo em vista a grande concentração de vencimentos de títulos prefixados no mês”, que somou R$ 291 bilhões. 

Segundo ele, o fato de apenas R$ 26 bilhões da Dívida Pública Mobiliária Federal Interna (DPMFi) vencerem em fevereiro “permitirá um aumento” da reserva neste mês. Mas o colchão “voltará a declinar em março”, com o vencimento de R$ 184 bilhões de Letras Financeiras do Tesouro (LFT). 

No material que acompanhou o relatório mensal, o Tesouro afirmou que em fevereiro “a sequência de dados negativos de inflação e atividade” levou “ao realinhamento das expectativas em relação à política monetária”. Segundo o Tesouro, esse movimento aconteceu “principalmente” nos EUA. 

Assim, “o mercado passou a precificar mais altas das taxas de juros pelo” Federal Reserve, o banco central americano, “e a manutenção das taxas de juros em patamares elevados por mais tempo”. “No mercado local a curva de juros voltou a ganhar inclinação, refletindo a piora no humor do mercado externo e o noticiário local sobre inflação e política econômica”, disse.