Valor Econômico, v. 23. n. 5700, 02/03/2023, Brasil, A4
Medidas favorecem redução dos juros, afirmam ministros
Estevão Taiar, Guilherme Pimenta e Edna Simão
Os principais ministros da área econômica afirmaram ontem que as medidas que vêm sendo adotadas e planejadas pelo governo federal facilitam o corte de juros pelo Banco Central (BC). Atualmente, a taxa Selic está em 13,75%, e o trabalho da autoridade monetária vem sendo um dos principais objetos de crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste início de mandato.
Após evento no Palácio do Planalto, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou que “o problema da inflação no Brasil não é de demanda”. Portanto, para baixar os juros, é preciso apenas “fazer o dever de casa”, segundo ela.
“Estamos fazendo um esforço concentrado para mostrar ao Banco Central, na próxima reunião do Copom [Comitê de Política Monetária], que o problema da inflação não é demanda”, disse a ministra. “Isso é um ponto importante, inicial, que nos dá tranquilidade do que estamos falando. É possível baixar os juros no Brasil, ainda que não nos patamares que nós queremos. Nós entendemos a posição do Copom, mas o problema da inflação no Brasil não é demanda. Então é só fazer o dever de casa.”
De acordo com Simone, o “dever de casa” envolve demonstrações de “segurança jurídica, previsibilidade e estabilidade”, que por sua vez seriam garantidas por meio da aprovação da reforma tributária e do novo arcabouço fiscal.
O Copom volta a se reunir nos dias 21 e 22 deste mês. Em entrevista ao vivo concedida ao UOL, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que “é possível” que o novo arcabouço fiscal seja apresentado antes da reunião. Ele lembrou que a decisão cabe ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Simone, Haddad e o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, chegaram a se reunir no fim do mês passado, quando estavam no auge as críticas de Lula ao BC e as pressões pelo governo federal para que a meta de inflação fosse elevada.
Na entrevista, Haddad afirmou que a independência da autoridade monetária “é uma situação incontornável no curto e médio prazo” e que não há “ânimo no Congresso para rever” o tema.
Mas Fernando Haddad reforçou o discurso de que a reoneração da gasolina e do etanol abre espaço para o BC antecipar o ciclo de corte de juros.
“O que fiz ontem [terça-feira, no anúncio da reoneração] não foi pressionar, foi lembrar o que está escrito na ata” do Copom, disse. “Se vai reduzir ou não [os juros], quando vai reduzir, é papel da autoridade monetária.”
Além disso, afirmou que o BC “deve estar atento ao que acontece com o crédito no Brasil”, defendendo que o atual nível de juro atrapalha a concessão de crédito.
O tema também têm sido tratado pelos ministros com outros interlocutores. “Conversei hoje [terça-feira, 28] com a ministra Simone Tebet, sobre a nova âncora fiscal, que será fundamental para o controle fiscal do Brasil”, escreveu o deputado federal Mauro Benevides (PDT-CE) em sua conta no Twitter. “Falamos também sobre o papel do BC e sua política monetária que mantém a Selic em 13,75%, maior taxa de juros do mundo.”