Valor Econômico, v. 23. n. 5700, 02/03/2023, Política, A11 

Comissão de Ética da Presidência deve investigar supostos ilícitos do ministro das Comunicações 

Guilherme Pimenta e Raphael Di Cunto, Valor 

 

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República deve apurar supostos atos ilícitos do ministro das Comunicações, Juscelino Filho, deputado licenciado do União Brasil do Maranhão. O caso gera constrangimento no Palácio do Planalto e na bancada do União Brasil, partido do ministro, mas uma demissão não está sendo considerada por enquanto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não se manifestou oficialmente a respeito do caso. 

Reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” publicada nesta semana mostrou que o político usou um voo da Força Aérea Brasileira (FAB) para participar de um leilão no interior de São Paulo e ocultou, pelo menos, R$ 2,2 milhões em cavalos de raça na declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em agosto do ano passado, quando registrou sua candidatura a deputado estadual. 

No dia 26 de janeiro, o ministro viajou de Brasília para São Paulo utilizando um avião da FAB, sob alegação de uma viagem de urgência. 

A agenda oficial do político tinha um total de 2h30 de compromissos, segundo a reportagem, e acabava na tarde do dia seguinte, data do leilão de cavalos de raça. 

O ministro do governo Lula chegou a declarar ao TSE para disputa à Câmara Federal, em 2014, que possuía 24 cavalos no valor de R$ 120 mil. No entanto, mesmo com a aquisição de novos animais, eles não foram mencionados nas declarações de 2018 e 2022. 

Juscelino Filho é um dos dois ministros do governo Lula filiados ao União Brasil. Está na lista também a ministra Daniela Carneiro (Turismo). Waldez Góes (Integração) pertence ao PDT, mas foi indicado ao cargo pelo União, por meio do senador e aliado Davi Alcolumbre. 

A oposição já explora o episódio. O deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) protocolou nesta quarta-feira representação contra Juscelino Filho para que a Procuradoria-Geral da República apure suposto tráfico de influência dele envolvendo empreiteira investigada por fraude de licitações. 

Segundo afirma o parlamentar na representação “o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, usando do poder que tem como integrante do primeiro escalão do governo Lula, estaria atuando junto à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para favorecer a empresa Engefort, empreiteira ligada a políticos e apontada como integrante de um cartel com envolvimento em desvios de recursos da Codevasf”. 

Sanderson relata, com base em reportagens publicadas pela imprensa, que Juscelino Filho foi à sede da Codevasf no Maranhão para defender a manutenção de contratos da empresa Engefort. O encontro não consta da agenda oficial do ministro, mas foi registrado por assessores da empresa em suas redes sociais. 

O caso foi revelado pelo jornalista Rodrigo Rangel, do portal “Metrópoles”. Procurada pelo Valor, a pasta das Comunicações não se manifestou até a publicação da reportagem.