O Globo, n 32.382, 04/04/2022. Economia, p. 18

Setor aéreo e turismo enfrentam perdas



Aumento do querosene de aviação causa novo prejuízo às aéreas, ainda em recuperação
O impacto negativo do aumento dos combustíveis, em decorrência da alta do petróleo, tem afetado gravemente o setor aéreo, que ensaiava uma recuperação depois dos prejuízos causados pela pandemia.

— O querosene de aviação está se transformando em um custo cada vez mais pesado para as companhias aéreas — afirma Fabio Bentes, economista da CNC.

Nos três primeiros meses deste ano, o aumento do QAV chegou a 15%. Estudos da CNC apontam que o preço pode aumentar ainda mais 11% nos próximos meses. Essas altas provocam um efeito cascata, com aumento de passagens aéreas, retração nas compras e redução da oferta de voos.

— As companhias aéreas vinham tentando recompor as margens perdidas durante as fases mais agudas da pandemia, houve um processo de recuperação que dura pelo menos seis meses. Mesmo com esse processo de recuperação, a demanda por serviços aéreos ainda não se normalizou. Nos três principais aeroportos do Brasil, a demanda por voos ainda está 30% abaixo do período pré-pandemia. Quando a gente leva em consideração esse cenário de alta do barril do petróleo e, consequentemente, do preço do querosene de aviação, isso coloca uma dificuldade adicional para que o setor recomponha as margens, o que já vinha acontecendo antes mesmo do conflito do Leste Europeu, e cria um desincentivo na retomada pela demanda de serviços de transporte aéreo — diz Bentes.

Segundo o economista, as empresas aéreas têm apresentado recuperação de receita nos últimos meses, mas inferior ao aumento dos custos.

— Esse problema do conflito no Leste Europeu criou dificuldades para as companhias aéreas, para o consumidor e até mesmo para o governo. Se você tem uma queda da demanda por transporte aéreo, tem uma queda da arrecadação de impostos. O cenário muda de semana para semana e, com ele, uma nova perspectiva para o setor de transporte aéreo e o de turismo é redesenhada a cada semana.

Os danos recaem também sobre o turismo porque cortes com viagens de lazer estão entre as primeiras medidas tomadas pelas famílias em cenário de alta da inflação. Dados da CNC indicam que o setor do turismo deixou de faturar R$ 214 bilhões em 2021. Desde fevereiro de 2020, as perdas foram de R$ 473,7 bilhões.