Valor Econômico, v. 23. n. 5700, 02/03/2023, Brasil, A7
Censo atinge 91% da população e acende alerta de especialistas
Lucianne Carneiro
Sete meses depois de seu início, a etapa de coleta de dados do Censo Demográfico 2022 chegou ao fim com a contagem de 189.261.144 habitantes no país, o que corresponde a apenas 91% da população estimada, segundo prévia divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 28 de fevereiro.
Mesmo com a extensão do prazo de coleta - que ultrapassou o dobro dos três meses tradicionalmente usados para esta etapa -, a cobertura da pesquisa ficou distante do que seria um nível adequado, na avaliação de demógrafos. Nenhum Censo consegue 100% da cobertura da população, mas em geral a parcela faltante fica abaixo dos 5%.
A questão agora é de que forma esses dados serão aproveitados e como será possível se aproximar dos 100% da população. A data de referência do Censo é dia 1º de agosto. Quanto mais distante dessa data de referência é feito o questionário com a população, maior é a chance de imprecisão dos dados.
O IBGE informou que começou a etapa de apuração dos resultados, que inclui questões como “supervisão pontual, crítica e consistência dos dados e imputação dos dados”, que é uma técnica usada para incluir dados que estão ausentes. No caso deste Censo, como a coleta dos dados foi de apenas 91% da população estimada, esse processo de imputação dos dados terá que abranger uma parcela maior da população.
No fim de abril serão divulgados os primeiros resultados do Censo 2022, segundo confirmou o IBGE nesta quarta-feira (1º).
Questionado pelo Valor, o IBGE afirmou que não existe ainda uma estimativa de cobertura do Censo. Esses indicadores de cobertura e qualidade do Censo serão obtidos, segundo o instituto, após a conclusão da chamada pesquisa de pós-enumeração do Censo (PPE).
A pesquisa faz análise detalhada dos resultados de uma amostra de 1,5% dos setores censitários (áreas nas quais está dividido o território brasileiro). O objetivo é fornecer recursos para a avaliação da co- bertura e da qualidade da coleta.
O instituto esclareceu que “possíveis falhas na cobertura e na qualidade das informações declaradas pelos moradores são fenômenos comuns em censos demográficos de diversos países, uma vez que os censos são operações complexas, sujeitas a imprecisões que cabem ser conferidas e corrigidas”.
Nesta etapa de apuração, disse o IBGE, os recenseadores vão retornar aos domicílios com recusa para tentar convencer os moradores a participarem. Caso a recusa persista, os moradores receberão uma carta de notificação e terão até dez dias para responder o questionário pela internet.
Segundo o IBGE, no Censo de 2010, o total de não resposta foi de aproximadamente 1,5%, enquanto a parcela de recusa não foi contabilizada de forma separada. Já para o Censo 2022, a taxa de recusa, considerando a parcela da população contada, foi de 2%.
Para o professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) José Eustáquio Diniz Alves, o percentual de 91% de contagem da população estimada é baixo e é preciso uma avaliação ampla sobre os dados levantados para seu aproveitamento.
“Esse número de 91% é muito pouco, é um percentual muito baixo. [...] Se for um 91% bem distribuído entre a população, entre grandes grupos, como jovens e idosos, aí existem condições estatísticas de imputar os dados, usando também outras fontes. Aí você pode por meio de técnicas estatísticas chegar bem próximo da realidade. Não vai ser o melhor Censo, mas vai ser o Censo possível. Não tem outra solução diante dessa confusão toda que o Brasil está inserido nos últimos anos”, disse o demógrafo.
O Censo Demográfico 2022 foi marcado por atrasos nos pagamentos a recenseadores e por baixa remuneração a esses profissionais, que dificultou a atração de trabalhadores para a função. Isso provocou atraso na coleta dos dados. Antes de seu início, o Censo foi adiado por dois anos seguidos. Primeiro, em 2020, por causa da pandemia. Depois, em 2021, por causa de falta de recursos no Orçamento do governo.