O Globo, n 32.382, 04/04/2022. Economia, p. 18
Guerra impõe novo front ao comércio
Conflito no Leste Europeu eleva preço de combustíveis e alimentos e prejudica desempenho do varejo; CNC reduz previsão de aumento de vendas no setor
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia aumentou as dificuldades para a economia brasileira, que já tinha um cenário preocupante de inflação e juros altos desde o ano passado. Para o comércio, o quadro é especialmente delicado: o aumento dos combustíveis e dos alimentos tende a pressionar ainda mais os preços no varejo.
Nem o dólar em baixa, devido à busca por mercados emergentes alternativos à Rússia, tem sido capaz de aliviar a subida da inflação, com previsão de taxas altas em março e abril. Também os juros ainda estão em trajetória de crescimento.
— Há grandes chances de aumento dessas taxas, impactando atividades mais dependentes das condições de crédito — avalia o presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), José Roberto Tadros.
O setor supermercadista — o maior do varejo — deverá ser particularmente afetado no médio prazo pelo aumento do preço dos combustíveis, mas também do de commodities agrícolas, como milho e trigo, e por uma possível redução da oferta de fertilizantes, importados da Rússia. Soma- se a esses fatores a volatilidade na economia típica de anos eleitorais.
— É um momento de bastante cautela para os varejistas, as decisões de investimento e de contratações, que já eram postergadas para depois das eleições, precisam de mais cuidado ainda em função do cenário geopolítico internacional. A gente já vem de uma pandemia, um choque que teve mudança de comportamento dos consumidores, e agora tem esse novo choque que é a guerra — afirma Tadros.
Diante dos problemas adicionais criados pela guerra, a CNC reduziu a previsão de aumento de vendas no varejo em 2022.
— A gente tinha uma expectativa de o comércio crescer 0,9% em volume de vendas, mas, com o conflito no Leste Europeu, a expectativa é de que cresça somente 0,5% este ano, em razão das pressões inflacionárias maiores, da disseminação de inflação, e isso faz com que haja necessidade de juros altos por mais tempo. O que afeta segmentos do varejo dependentes do crédito, como materiais de construção, comércio automotivo, bens duráveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos — explica Izis Ferreira, economista da CNC.
A redução da alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e medidas para frear o aumento de derivados do petróleo como diesel e gás de cozinha poderão ajudar a reduzir a inflação.
— Se a indústria repassar a queda do IPI para o comércio e o comércio repassar, pelo menos em parte, para o produto final, a gente tende a ter um cenário inflacionário um pouco menos pior à frente — afirma Izis.
Assessor econômico da Fecomércio SP, Fabio Pina lembra que a guerra acirrou um problema já muito grave no país:
— A inflação era um problema e ficou pior. O preço do combustível, se a guerra durar mais tempo e envolver outros países, afetará outras cadeias. A gente já vem de uma pressão inflacionária nada trivial. Agora vem o combustível, que é muito sensível politicamente. O maior problema da guerra neste momento para o comércio e para o país é o efeito sobre a inflação. Tem toda a tragédia humana, que a gente não consegue calcular, mas, a inflação, eu consigo calcular.