O Globo, n 32.382, 04/04/2022. Economia, p. 15

UMA NOVA ORDEM ECONÔMICA GLOBAL



O MUNDO APÓS  A GUERRA DA UCRÂNIA
A guerra entre Rússia e Ucrânia é um evento histórico com potencial para redefinir a ordem econômica mundial, segundo os participantes da primeira edição do ano do debate “E Agora, Brasil?”, realizado pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico. Se o impacto mais imediato para a economia brasileira da guerra foi uma alta forte do petróleo no mercado internacional, o consenso é que o mundo pós-guerra levará a uma reconfiguração nas relações internacionais.

Os sinais apontam para a manutenção duradoura das sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia. Nesse contexto, a China desempenha papel chave para o futuro da economia global, novamente ameaçada de ficar dividida entre dois grandes blocos.

—É um erro dizer que uma nova Guerra Fria é uma possibilidade. Ela já se iniciou — disse o diplomata, ex-ministro da Fazenda e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Rubens Ricupero. — O problema é saber se vai ou não ter permanência. Se permanecer e se agravar, levará a um comprometimento maior do que chamamos de globalização.

No evento, que tem o patrocínio do Sistema Comércio, através da CNC, do Sesc, do Senac e de suas federações, Ricupero discutiu os efeitos para a economia mundial e brasileira da guerra na Ucrânia com o economista Armando Castelar, os executivos Luís Rua e Gustavo Theodozio e o senador Jean Paul Prates (PT-RN), com a mediação dos jornalistas Luciana Rodrigues, editora de Economia do GLOBO, e Fernando Exman, chefe da Redação da sucursal de Brasília do Valor Econômico.

Para Ricupero, a chance de que o conflito se encerre nas próximas semanas e que um cessar-fogo avance rapidamente para um acordo de paz não está totalmente descartada. Isso poderia abrir caminho para que o mundo voltasse ao ponto em que estava antes do conflito. Contudo, o mais provável é que a situação não se resolva facilmente. Além disso, as sanções impostas não seriam retiradas prontamente, o que incentiva a Rússia a buscar saídas econômicas que contemplam o apoio da China.

—Pode-se chegar a um mundo em que haja dois sistemas de pagamentos, dois sistemas bancários e mesmo dois sistemas de internet separados, o que atingiria a globalização no seu âmago—analisou o diplomata, que já foi embaixador do Brasil nos EUA.

PAPEL DA CHINA

Embora a guerra seja da Rússia, o posicionamento da China é visto como elemento fundamental. Há uma trégua vigente na guerra comercial entre os EUA e o país asiático, mas o presidente americano Joe Biden não retirou as barreiras impostas por seu antecessor, Donald Trump.

— A coisa é mais com a China do que com a Rússia —observou Armando Castelar, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ. —A China é o grande ganhador desse episódio. Vai ter acesso a gás barato e ao mercado russo.

Segundo Castelar, a recente guerra comercial entre EUA e China e o uso de sanções econômicas contra a Rússia reforçam a percepção de que a economia virou uma arma.

— Cada vez mais, a economia será usada como arma geopolítica. Em vez de mandar soldados, tira do Swift (sistema internacional de pagamentos), impede exportações. Mas isso tem consequência para a forma como a economia funciona. Já aconteceu no Irã, que criou o seu próprio sistema de internet — destacou.

CADEIA GLOBAL DE PRODUÇÃO

A tendência, avalia Castelar, é que a aplicação das sanções na escala usada agora contra a Rússia acelere o processo de desmontagem das cadeias globais de valor.

— A China está investindo loucamente para ter os seus próprios chips e não depender dos chips americanos. Haverá uma desconexão das cadeias globais — disse, ressaltando que a iniciativa do Brasil de voltar a produzir fertilizantes internamente para não depender da importação da Rússia já entra nesse contexto.

Para o senador Jean Paul Prates (PT-RN), o cenário evidencia a importância de revisitar o conceito de soberania.

—(É preciso) recompreender, do ponto de vista histórico e estratégico, o que é ser uma economia soberana e o que é ter autonomia em determinados insumos e recursos. Exercer soberania no sentido moderno, que envolve países, governos e diplomacia, mas também grupos de interesse, conglomerados privados, patentes, cérebros. Quem tem isso detém soberania moderna.

O diretor de mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Luís Rua, observou que, desde o colapso da União Soviética e o avanço da globalização, a guerra na Ucrânia é a primeira que envolve dois países relevantes para os mercados agropecuários, o que gera preocupação no setor. E lembrou que o Brasil depende hoje de 85% de fertilizantes importados:

—Esse talvez seja o primeiro conflito da era da globalização.

O vice-presidente de investimentos e controladoria da M. Dias Branco, Gustavo Theodozio, reconheceu que a companhia, uma das maiores fabricantes de biscoitos e massas do país, tem sido impactada sobretudo pela alta dos preços do trigo.

—Quando a gente achava que o mundo ia ficar mais tranquilo, surge a guerra. E no Brasil ainda tem eleição este ano. Estamos navegando num mar revolto.

Para José Roberto Tadros, presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o momento exige cautela dos empresários:

—Junto com o drama humanitário de um conflito que está cobrando um alto preço da população civil ucraniana, vem também o efeito na cadeia de suprimentos do setor produtivo, que acaba reverberando em todo o mundo. O Brasil já estava enfrentando a necessidade de controle da inflação, e a guerra trouxe mais um componente para este cenário.