Valor Econômico, v. 23. n. 5692, 16/02/2023, Agronegócios, B8
Café tem alta mensal de mais de 13% em NY
Paulo Santos, José Florentino e Érica Polo
As incertezas sobre o volume da próxima safra brasileira de café e o registro de chuvas acima da média em algumas regiões produtoras deram um forte impulso aos preços do café na bolsa de Nova York em fevereiro. Os preços médios dos contratos de segunda posição de entrega, que são normalmente os de maior liquidez, subiram 13,37% em comparação com o mês anterior, para US$ 1,8111 por libra-peso, segundo cálculos do Valor Data.
As projeções para a safra do Brasil em 2023 têm sido bastante díspares, o que deixa os traders em dúvida, já que o país é o principal fornecedor mundial da variedade arábica. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) fala em colheita de 55 milhões de sacas, a StoneX projeta volume de 62,3 milhões de sacas e a consultoria Agro do Itaú BBA prevê safra de 65 milhões de sacas.
“A nossa estimativa está bem abaixo da supersafra que se ventilava no mercado, de até 75 milhões de sacas. Por questões de seca e de uma florada que não foi tão boa, o número ficou distante daquilo que se esperava”, diz Leonardo Rossetti, analista da StoneX.
Ele acrescenta que, em boa parte do sul de Minas Gerais e em regiões do Cerrado, o volume de chuvas em fevereiro foi o maior nos últimos 20 anos. Isso dificultou os tratos culturais e contribuiu também para a elevação das cotações na bolsa de Nova York.
O suco de laranja concentrado e congelado (FCOJ, na sigla em inglês) também teve um avanço expressivo em fevereiro. Os preços acumularam alta de 15,30% no mês passado, para US$ 2,3411 por libra-peso, em média.
O açúcar valorizou-se 6,69% em Nova York, alcançando média de 19,94 centavos de dólar por libra-peso. A baixa disponibilidade no curto prazo, uma decorrência da entressafra no Brasil, e as incertezas sobre o volume a ser exportado pela Índia neste ciclo ofereceram sustentação às cotações.
As preocupações com a oferta pautaram também o mercado de cacau - a amêndoa subiu 2,30% no mês passado em Nova York, para US$ 2.692 a tonelada, em média. O volume de entregas semanais de cacau nos portos da Costa do Marfim, que responde por 45% da produção mundial da commodity, está em patamar 0,5% inferior ao da safra passada, somando 1,65 milhão de toneladas, segundo o gerente de relacionamento da HedgePoint para Europa, Dean Tuti.
Entre as chamadas “soft commodities”, apenas o algodão encerrou o mês passado em queda. De acordo com o Valor Data, a cotação média dos contratos de segunda posição recuou 0,65% em fevereiro, para 84,51 centavos de dólar por libra-peso.
Já na bolsa de Chicago, soja e milho acumularam alta, refletindo o mau momento da safra na Argentina. A soja avançou 1,15% em fevereiro, a US$ 15,2103 o bushel, e o milho subiu 0,14%, para US$ 6,6992 o bushel.
A combinação entre uma das piores secas em décadas e geadas antecipadas levou a cortes nas projeções de colheita no país. A Bolsa de Cereais de Buenos Aires, que, no início de fevereiro, previa colheita de 38 milhões de toneladas de soja em 2022/23, reduziu sua estimativa para 33,5 milhões de toneladas. No caso do milho, a previsão da bolsa, que era de 48 milhões de toneladas em janeiro, passou a ser de 41 milhões de toneladas.
Ainda que o trigo tenha encerrado o último pregão de fevereiro em seu menor patamar desde setembro de 2021 (US$ 7,0550 o bushel), no fechamento das médias do mês, o cereal acumulou valorização de 1,41%, a US$ 7,6334 o bushel. A série de altas em fevereiro foi puxada pelo aumento da tensão entre Rússia e Ucrânia, que acentuou as dúvidas do mercado sobre a manutenção do acordo de exportação de grãos pelo Mar Negro, e também pelo clima mais seco que o normal em áreas produtoras de trigo dos Estados Unidos.