O Globo, n 32.383, 05/04/2022. Economia, p. 16

‘Tem que pegar um arce­bispo para ser dire­tor?’, iro­niza Lira

Bruno Góes


Para presidente da Câmara, conflito de interesse que levou Pires a desistir de indicação na Petrobras é “falso moralismo'

Crítico das últimas gestões da Petrobras, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), defendeu ontem a mobilização do presidente Jair Bolsonaro para indicar o economista Adriano Pires, de quem é próximo, para o cargo mais importante da empresa, a presidência da companhia. Irritado com os obstáculos para indicação, Lira chegou a sugerir que apenas um “arcebispo” poderia ser alçado ao posto.

Em encontro realizado pelo site Jota, o presidente da Câmara tratou como “falso moralismo” o debate sobre conflito de interesses que levou Pires a desistir do cargo.

‘JULGAMENTO PRECIPITADO’

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, também abandonou a pretensão de ser indicado à presidência do Conselho de Administração da petroleira por motivo semelhante.

Ao lado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, Lira tratou do assunto ontem.

— Hoje eu estava comentando aqui com o ministro (Gilmar Mendes): a pauta da imprensa e talvez do Ministério Público é condenar o possível presidente da Petrobras porque prestava assessoria a um grupo empresarial. Se eu sou da atividade privada, eu não posso trabalhar para nenhum grupo empresarial? Eu não posso prestar serviço? Eu não posso ter trabalhado e isso vai me prejudicar nas minhas decisões lá na frente? —disse Lira.

O presidente da Câmara argumentou em seguida que a escolha ficaria restrita a pessoas sem experiência no assunto.

—Quer dizer, você tem que pegar um funcionário público para ser diretor da Petrobras? Ou pegar um arcebispo para ser diretor da Petrobras? Um almirante, um coronel? Não, você tem que colocar alguém que entenda de petróleo e gás.

Alguém que entenda do setor, que vá ser julgado dali para frente sobre suas ações. A gente tem um falso moralismo, um julgamento precipitado, uma versão nas ações que só atrapalha o nosso país.

Após Adriano Pires informar ao Palácio do Planalto ter desistido de ocupar a presidência da Petrobras, o presidente Jair Bolsonaro tentou ao longo do dia reverter a decisão e salvar a indicação do economista para o cargo, mas ele formalizou em carta na noite de ontem a desistência.

No começo do dia, Pires avisou a ministros que não teria como assumir o cargo por conflitos de interesses em decorrência das empresas para as quais prestou serviços, como informou a colunista do GLOBO Malu Gaspar.

Adriano Pires havia sido indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para o cargo na semana passada, para substituir o general Joaquim Silva e Luna. No domingo, Rodolfo Landim já havia declinado do convite para o cargo de presidente do Conselho de Administração da empresa.

Em entrevista ao GLOBO, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse semana passada que Pires era a pessoa “mais adequada” para estar à frente da estatal, pois tem “interlocução muito grande com o Congresso Nacional, com o próprio Executivo e com a própria mídia”.