Valor Econômico, v. 23. n. 5701, 03/03/2023, Brasil, A4
Após ‘empurrar’ PIB em 2022, setor de serviços perde fôlego
Marsílea Gombata, Rafael Vazquez, Lucianne Carneiro, Alessandra Saraiva e Rafael Rosas 

 

Protagonista da atividade em 2022, o setor de serviços puxou o crescimento da economia no ano passado. No quarto trimestre, contudo, começou a dar sinais de desaceleração, o que deve continuar em 2023, segundo economistas. 

O PIB de serviços teve crescimento de 0,2% no quatro trimestre de 2022, ante o terceiro trimestre, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atividades de informação e comunicação cresceram 1,8%, outras atividades de serviços e atividades financeiras, 0,9%, atividades imobiliárias, 0,7%, e transporte, armazenagem e correio, 0,2%. Houve queda de 0,9% no comércio e de 0,5% em administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade. 

Na comparação com o mesmo trimestre de 2021, houve alta de 3,3%. O avanço foi impulsionado por crescimento de outras atividades de serviços (8,3%), transporte, armazenagem e correio (5,3%), informação e comunicação (4,9%), atividades imobiliárias (3,2%), financeiras, de seguros e serviços relacionados (2,4%) e comércio (2,1%). Administração caiu 0,3%. 

Em 2022, serviços tiveram crescimento anual de 4,2%, com todos os subsetores crescendo. Destaque para outras atividades de serviços (11,1%), transporte, armazenagem e correio (8,4%), informação e comunicação (5,4%), atividades imobiliárias (2,5%). Administração, expandiu 1,5%, e comércio, 0,8%. 

A expansão de 4,2% do setor em 2022 foi a principal contribuição para o crescimento da economia brasileira no ano passado, segundo dados divulgados pelo IBGE. 

Segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o setor respondeu por 2,4 pontos percentuais do crescimento de 2,9% do PIB em 2022. 

O PIB de serviços, ela afirmou, atingiu no quarto trimestre de 2022 o maior patamar da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. 

Depois de puxar o crescimento em 2022, o setor serviços deve ter contração de 0,2% neste ano, afirma Marina Garrido, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). 

“Esperamos um crescimento de 0,3% para o PIB neste ano e contração de 0,2% para o setor de serviços. A nossa projeção anterior era de alta de 0,2% para o PIB e de contração de 0,4% para serviços em 2023”, afirma Marina. 

No curto e médio prazo, diz a economista, devemos ver desaceleração da atividade do setor terciário. Para o primeiro trimestre de 2023, o FGV Ibre espera alta de 0,7% do PIB, ante o trimestre anterior, e queda de 0,2% para serviços. 

Apesar do grande destaque pelo lado da oferta no PIB de 2022, o setor de serviços já começou a dar sinais de arrefecimento no último trimestre do ano pela dissipação do impulso pós-covid, pela desaceleração do mercado de trabalho e por causa da política monetária contracionista, afirma Rodolfo Margato, economista da XP. 

“Serviços cresceu muito acima do PIB total e foi um setor que se beneficiou da reabertura da economia, do impulso pós-covid, da normalização do padrão de consumo das famílias”, diz Margato. “No entanto, há sinais claros de desaceleração. Essa alta modesta no último trimestre fica muito aquém dos cinco trimestres anteriores, de crescimento médio de 1,1%.” 

Dentre os fatores, estão o impacto da política monetária restritiva, com um ambiente de juros mais elevados e alto grau de endividamento das famílias, com balanço financeiro apertado em muitos casos, diz. “Também começamos a observar sinais arrefecimento no mercado trabalho. A taxa de desemprego vinha em trajetória de queda forte, mas mostrou acomodação no trimestre passado, mostrando perda de tração. Há ainda a dissipação do impulso pós-covid.” 

Um crescimento menor do consumo e dos serviços será o principal fator para um desempenho fraco do PIB neste ano, segundo o economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria. 

“Como consumo e serviços têm sido o motor [da atividade], uma vez que eles desaceleram, a economia vai junto”, diz, ao prever crescimento de 1% para serviços e de 1% para consumo das famílias no ano. 

Segundo Xavier, a política monetária contracionista e a desaceleração do mercado de trabalho começam a afetar a demanda de bens duráveis, mais dependente de crédito, e a renda agregada. “Esse processo vai se aprofundar, diz. 

Depois da participação expressiva de serviços em 2022, o protagonismo da atividade econômica deve ficar com agropecuária e indústria extrativa em 2023, prevê Thais Zara, da LCA Consultores. 

“Vemos que efeitos maiores da abertura pós-pandemia estão ficando para trás, assim como medidas de estímulo tomadas no ano passado”, diz. 

Para 2023, ela afirma, há expectativa bastante positiva para safra agrícola, especialmente de soja, e crescimento mais forte da indústria extrativa mineral. “Esses componentes garantem um PIB mais forte em 2023”, diz. “Serviços perdem protagonismo. E teremos como principais drivers agropecuária e a extrativa mineral.” 

Para o primeiro trimestre deste ano, a LCA prevê queda de 0,6% de serviços. Para 2023, a projeção é de expansão de 0,6% do setor. 

Na mesma linha, o comércio deve andar de lado no curto prazo, após crescer em 2022, mas ter tido queda na passagem do terceiro para o quarto trimestre de 2022. 

“O comércio tem um componente on-line importante. Na pandemia, quando deixaram de consumir serviços devido às restrições sociais e passaram a consumir bens, houve a antecipação de muitas compras”, diz Gino Olivares, economista da gestora Azimut e professor do Insper. “As pessoas ficaram em casa e trocaram móveis, computadores, TV, geladeira. Como compras foram antecipadas, era natural o volume diminuir”. 

Fabio Pina, assessor da FecomercioSP, espera que o crescimento anual do PIB desacelere para cerca de 1% no primeiro trimestre e que o comércio cresça pouco ou ande de lado no período.