O Globo, n 32.383, 05/04/2022. Política, p. 06
Lula diz que pretende tirar oito mil militares do governo
Sérgio Roxo
Medida foi elencada como um dos desafios que terá caso seja eleito
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ontem, durante encontro na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que, caso eleito para comandar o país em outubro, pretende tirar quase oito mil militares que ocupam cargos comissionados. Os integrantes das Forças Armadas fazem parte da base eleitoral do presidente Jair Bolsonaro e, na atual gestão, aumentaram a participação no governo.
Em sua fala para os dirigentes sindicais, Lula vinha elencando as dificuldades e desafios que terá que enfrentar se for eleito, quando revelou o seu plano para os militares.
— Nós vamos ter que começar o governo sabendo que vamos ter que tirar quase oito mil militares que estão em cargos de pessoas que não prestaram concurso. Vamos ter que tirar. Isso não pode ser motivo de bravata, tem que ser motivo de construção. Porque se a gente fizer bravata pode não fazer —discursou o ex-presidente, no encontro em que recebeu a plataforma da CUT para as eleições de 2022.
Lula já vinha criticando a presença de militares na administração federal. A forma de afastar os integrantes da Forças Armadas dos cargos em comissão no governo tem sido discutida no entorno do ex-presidente desde o ano passado.
Na última quarta-feira, em evento na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o petista havia afirmado que “o papel dos militares não é puxar saco de Bolsonaro nem de Lula” e que eles têm que ficar acima das disputas políticas. Disse ainda que “Exército não serve para política, ele deve servir para proteger a fronteira e o país de ameaças externas”.
Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a quantidade de militares da ativa e da reserva que ocupam cargos civis no governo federal mais do que dobrou nos primeiros anos da gestão de Jair Bolsonaro. Em 2018, havia 2.765 militares em cargos civis no Executivo federal. Em 2019, o número chegou a 3.515 cargos destinados a servidores oriundos da caserna. Já em 2020, o total chegou a 6.157 no mês de julho, um aumento de 122%.
“ELEIÇÃO COMPLICADA”
No encontro de ontem, Lula disse que prevê uma “eleição complicada” contra Bolsonaro.
— Não vai ser fácil, não é uma guerra que está ganha. É uma guerra que a gente pode ganhar — afirmou o ex-presidente.
Em outro momento do discurso, porém, disse estar tão otimista agora como estava em 2002, quando foi eleito pela primeira vez.
Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 24 mostra que diminuiu a vantagem do petista sobre Bolsonaro, que cresceu entre os mais pobres. Lula, no entanto, continua na liderança, com 43% das intenções de voto, enquanto o atual presidente tem 26%.