O Globo, n 32.383, 05/04/2022. Política, p. 06

Articulações políticas de Dirceu irritam PT

Bela Megale e Malu Gaspar


Ex-ministro tem se reunido com empresários e políticos em conversas sobre a pré-candidatura do ex—presidente Lula, e já escalou até o governador da Bahia, Rui Costa, para ministro da Economia


As articulações políticas do ex-ministro José Dirceu em torno da campanha do ex-presidente Lula têm gerado irritação e críticas entre lideranças do PT, como a presidente do partido, deputada Gleisi Hoffmann (PR). O próprio ex-presidente já declarou que “figuras históricas” do partido como Dirceu, desgastado após cumprir penas de prisão pelo mensalão e por esquema de corrupção na Petrobras, não teriam papel em um eventual terceiro governo. Dirceu tem se reunido com empresários e políticos e, nessas conversas, já escalou até o governador da Bahia, Rui Costa (PT), como futuro ministro da Economia.

Gleisi já externou a diferentes integrantes do PT que reprova a atuação de Dirceu. A deputada chegou a questionar o ex-ministro sobre alguns movimentos, como uma reunião com o governador Ratinho Júnior (PSD), que disputará a reeleição no Paraná contra o petista recém-filiado Roberto Requião.

Dirceu tem conversado com setores que mostram resistência a Lula, como o empresariado, além de adversários do PT que sinalizam interesse em dialogar com o partido. O petista trabalha nos bastidores e de maneira paralela à campanha de Lula. Dirceu disse a aliados que sabe que é uma figura polêmica e que não quer atrapalhar Lula, por isso age por conta própria.

O ex-ministro tem se reunido com pequenos grupos a convite de corretoras como Guide e XP, e pede sempre que as conversas fiquem em segredo. Nos encontros reservados, não se furta a fazer previsões sobre cenários e a eventual composição de um novo governo Lula.

O vaticínio que mais chama a atenção é o de que o ministro da Economia seria um político, muito provavelmente um ex-governador nordestino —Rui Costa, da Bahia, é o mais cotado na bolsa de apostas de Dirceu.

Ele reconhece que a situação que os petistas encontrarão na economia é bem mais crítica do que a que havia quando Lula ganhou a eleição pela primeira vez, em 2002.

Mas, apesar de argumentar que o ex-presidente não faria nenhum estrago na economia, porque já demonstrou ser um pragmático, Dirceu diz que será o fim de políticas como o teto de gastos, que impede o crescimento das despesas da União acima da inflação, e a regra de ouro, que proíbe o governo de se endividar para pagar gastos correntes, como salários.

Na prática, elas já vêm sendo desrespeitadas no governo Bolsonaro. A ideia no PT, afirma Dirceu, é articular uma solução que acabe com elas sem parecer um desrespeito à responsabilidade fiscal.

A CONVERSA OFICIAL

Ontem seria a vez de Gleisi se reunir com empresários e integrantes do setor financeiro em um jantar em São Paulo. A intenção era apresentar o que está sendo desenhado por Lula caso seja eleito presidente. A presidente do PT já foi alertada sobre os temas que preocupam o empresariado e que serão alvos de questionamentos, como a revisão da reforma trabalhista. Outros assuntos que estarão à mesa são a privatização da Eletrobras e a política de preços da Petrobras.

Gleisi adiantou a aliados que criticará o esvaziamento do BNDES no governo Bolsonaro e vai destacar a importância do banco de fomento em um eventual governo do PT. Sobre a reforma trabalhista do ex-presidente Michel Temer, a deputada deve reforçar a postura de Lula que aponta a necessidade de revê-la, apesar de ter sido aconselhada a se esquivar do tema.

O encontro de Gleisi com os empresários é promovido pelo grupo Esfera Brasil, que pretende receber todos os presidentes de partidos com candidatos ao Palácio do Planalto.