Valor Econômico, v. 23. n. 5701, 03/03/2023, Política, A11
Lula descarta seguir lista tríplice para escolher próximo PGR
Fabio Murakawa e Cristiano Zaia 

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nessa quinta-feira (2) que não levará em conta a lista tríplice formulada pela categoria para escolher o próximo procurador-geral da República (PGR). Ele também não descartou a possibilidade de escolher o advogado Cristiano Zanin, que o defendeu nos processos decorrentes da Operação Lava-Jato, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). E voltou a cobrar do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que reduza a taxa básica de juros. 

Nos seus dois primeiros mandatos (2003-2008), Lula escolheu o mais votado da lista tríplice para a PGR. Mas nessa quinta-feira, em entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo, da rádio Band News, ele afirmou que “a lista tríplice não resolve o problema”. 

Em setembro, Lula terá que escolher o substituto de Augusto Aras, escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e que terá o mandato expirado. Na entrevista, ele afirmou que fará a escolha a partir de sua “experiência”. 

“Eu vou pensar muito com a minha consciência, a partir da experiência que eu tive. Eu vou pensar muito, o critério será pessoal, de muita meditação. Eu vou conversar com muita gente. Eu só espero escolher um cidadão decente, digno, de muito caráter”, disse Lula. “Eu não penso mais em lista tríplice. Já está provado que nem sempre a lista tríplice resolve o problema. Eu vou ser mais criterioso para escolher o próximo PGR.” 

O mais votado da lista foi sempre o escolhido para o posto durante as presidências de Lula e Dilma Rousseff. Indicado por Dilma, porém, Rodrigo Janot, teve uma atuação relevante durante a Operação Lava-Jato. Ele chegou, além disso, a denunciar cúpula do partido no que ficou parecido como o “Quadrilhão do PT”. 

Lula comentou também as indicações que fará neste ano para as vagas de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber no Supremo Tribunal Federal (STF). E, questionado, falou sobre a possibilidade de indicar Cristiano Zanin, seu advogado no caso do tríplex do Guarujá. 

“Eu vou levar em conta o caráter. Às vezes, a pessoa quando põe a toga, ela muda de posição”, disse Lula. “Eu vou escolher dois [ministros]. O critério meu será primeiro notório saber jurídico. Hoje, se eu indicasse o Zanin, todo mundo entenderia que ele merece ser indicado. Ele é meu companheiro, como outros são meus companheiros. Eu nunca pedi nenhum favor a nenhum ministro.” 

Lula foi perguntado sobre a atitude de ministros indicados por ele e Dilma e que votaram, em 2018, contra um habeas corpus preventivo que evitaria que ele fosse preso pelo então juiz Sergio Moro. 

“Se eu tivesse que escolher as pessoas que eu escolhi com as informações que eu tinha na época, eu escolheria de novo. Eles votaram coisas importantes [apesar de terem negado habeas corpus]”, respondeu. “Depois que o povo brasileiro me perdoou, eu não vou ficar julgando [os ministros.” 

Lula também voltou a criticar o presidente do Banco Central por manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. 

“O presidente não pode criticar o presidente do BC? Que absurdo. O presidente da República pode criticar. O que eu não posso é ser leviano, mas estou dizendo a máxima verdade”, afirmou. “Qual é a explicação de você ter juros de 13,75% ao ano num país que não está crescendo? Tem uma economia que não está crescendo, tem desemprego, crédito está escasseando. E eu queria apenas uma explicação de por que os juros estão a 13,75%.” 

O presidente também voltou a criticar a autonomia do BC, em vigência no país desde 2021 e aprovada durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro . 

Lula defendeu ainda que Campos Neto precisa se preocupar não só com a inflação, mas também com “o emprego e o crescimento da economia”. “Não existe excesso de consumo, não existe inflação de consumo no país. A economia não está crescendo, o povo não está comendo. Então, não tem nenhuma razão de juros altos”, completou. 

Lula deve indicar dois novos diretores do BC. Paulo Souza, de Fiscalização, deve ser reconduzido. Bruno Serra, de Política Monetária, pretende sair, mas disse que ficará no cargo até que seu sucessor seja indicado.