Valor Econômico, v. 23. n. 5701, 03/03/2023, Empresas, B1
Lula volta a atacar dividendos e defende investimentos
Fabio Murakawa, Renan Truffi, João Valadares, Raphael Di Cunto e Cristiano Zaia


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente nesta quinta-feira (2) a política de distribuição de dividendos da Petrobras e defendeu que a estatal aumente os investimentos em projetos no país e reduza pagamentos aos acionistas. Durante evento de lançamento do novo Bolsa Família, Lula destacou a notícia de que a petroleira foi a segunda maior pagadora de dividendos do mundo em 2022, com US$ 21,7 bilhões, segundo relatório da gestora britânica Janus Henderson antecipado ao Valor. 

A sequência de resultados positivos nos últimos anos foi registrada após a estatal ser fortemente impactada por escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava-Jato. Em 2015, a companhia chegou a ter prejuízo recorde de R$ 34,8 bilhões. No ano anterior, a empresa reportou perdas de R$ 6,2 bilhões com corrupção. 

A estatal brasileira foi a única representante da América Latina entre as 20 empresas mais bem colocadas da publicação e exibiu o maior crescimento de distribuição de proventos ano a ano, com elevação de US$ 12,6 bilhões em relação a 2021. 

“Não podemos aceitar a ideia da notícia de hoje. A Petrobras entregou mais de R$ 215 bilhões para acionistas, quando ela devia investir. Em vez de investir, a Petrobras resolveu agraciar acionistas minoritários”, disse o presidente durante a cerimônia. A União, como controladora da estatal, também é beneficiada pela distribuição de dividendos. 

Na avaliação do presidente, a Petrobras deixou de ser uma indutora de investimento para se converter apenas numa exportadora de óleo cru. Para ele, a estratégia da companhia afeta a soberania energética do país. “A Petrobras virou uma empresa exportadora de óleo cru e não foi para isso que descobrimos o pré-sal. As empresas brasileiras precisam pensar primeiro neste país para, depois, pensar nos acionistas”, disse. 

Em entrevista exibida na noite desta quinta-feira, Lula reforçou as críticas e defendeu que a empresa poderia ter distribuído “metade dos dividendos” aos acionistas e ter aplicado a outra metade para investimentos. “Temos que pensar a Petrobras enquanto indústria de interesse estratégico do Brasil. Poderia ter dado metade dos dividendos e ter feito metade de investimentos”, afirmou Lula à Rádio BandNews FM. 

Na quarta-feira (1), a Petrobras informou ter registrado lucro recorde de R$ 188,32 bilhões em 2022. Foi o quinto ano seguido de resultado positivo. Lula classificou o resultado financeiro como “inacreditável”, mas descartou que está havendo “intervenção” na companhia. “A Petrobras é uma empresa de energia, tem que fazer investimento. A Petrobras é um patrimônio deste país, não apenas das pessoas que são acionistas. O governo é acionista majoritário, tem que ter poder de decisão”, frisou. 

Ainda comentando o lucro recorde da empresa, Lula defendeu “abrasileirar” o petróleo e afirmou que o governo só vai ter o controle da empresa em abril, quando devem assumir os novos diretores indicados pelo governo. “Nós vamos abrasileirar o preço do petróleo. Nós só vamos poder ter o controle da Petrobras em abril. Aí nós vamos discutir o papel da Petrobras no desenvolvimento do país. Não tem intervenção, não; tem interesse do povo brasileiro”, acrescentou. 

A divulgação das demonstrações financeiras da petroleira ocorreu um dia após o governo anunciar uma reoneração parcial sobre combustíveis. A respeito da decisão, o presidente afirmou na entrevista que não houve “vitória econômica sobre ala política, porque todas as decisões são passadas por mim”. 

O anúncio só foi feito após a Petrobras anunciar uma redução de R$ 0,13 no preço da gasolina, o que atenuou o efeito da volta do imposto sobre o combustível. “Era para o reajuste ser de R$ 0,69, aumentou R$ 0,34. Nós vamos taxar a exportação de petróleo cru para compensar o Estado por aquilo que o Estado desonerou. É justo”, disse o presidente.