O Globo, n 32.383, 05/04/2022. Economia, p. 15

CONFLITO DE INTERESSES

Manoel Ventura


Adriano Pires desiste de assumir presidência da Petrobras. Governo corre contra o tempo

A pouco mais de uma semana da assembleia geral de acionistas na qual o presidente Jair Bolsonaro pretendia mudar todo o comando da Petrobras, a situação da empresa passou por uma reviravolta. Ontem, um dia após Rodolfo Landim, indicado para a presidência do Conselho de Administração, desistir do cargo, o consultor Adriano Pires renunciou ao convite em razão de conflito de interesses, como antecipou a colunista do GLOBO Malu Gaspar em seu blog.

Pires justificou a decisão por dificuldades para encerrar sua consultoria, que existe há 20 anos e cujo sócio é seu filho, “a tempo” de assumir a Petrobras. No trabalho como consultor, Pires manteria ligação forte com companhias que, muitas vezes, têm interesses contrários aos da estatal. Entre os clientes de Pires está o empresário e sócio de distribuidoras de gás Carlos Suarez, que é também amigo de Landim. Outros clientes do consultor incluem a Abegás, associação do setor, e a Compass, concessionária de gás do empresário Rubens Ometto e diversas outras empresas de óleo e gás.

A saída de cena de Pires colocou o governo diante de uma corrida contra o tempo para encontrar novos nomes para os dois postos mais importantes da estatal.

“Ficou claro para mim que não poderia conciliar meu trabalho de consultor com o exercício da presidência da Petrobras. Iniciei imediatamente os procedimentos para me desligar do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), consultoria que fundei há mais de 20 anos e hoje dirijo em sociedade com meu filho. Ao longo do processo, porém, percebi que infelizmente não tenho condições de fazê-lo em tão pouco tempo”, afirmou Pires em carta ao Ministério de Minas e Energia, na noite de ontem.

Pires se reuniu ontem no Rio com o titular de Minas e Energia, Bento Albuquerque. O ministro — que na semana passada em entrevista ao GLOBO havia dito que o consultor era a “pessoa mais adequada” para a presidência da Petrobras —respondeu a Pires em carta. Disse que o “elevado conhecimento” de Pires no setor elétrico internacional e brasileiro era algo positivo, mas admitiu que “em decorrência de suas considerações consignadas na carta encaminhada a esta pasta, compreendemos as razões que o motivaram a declinar da indicação à presidência da Petrobras.”

Pires comunicou na manhã de ontem que desistira de assumir o cargo ao Palácio do Planalto, e assessores de Bolsonaro passaram o dia tentando convencê-lo a mudar de ideia. Em conversas com auxiliares no domingo e ontem, Bolsonaro atribuiu a supostos “inimigos” na Petrobras os obstáculos criados para Pires assumir o cargo. Esses obstáculos deixaram Bolsonaro irritado, e o presidente não queria dar o braço a torcer. Ele reclamou que teria, na sua avaliação, o direito de escolher o presidente da Petrobras.

Ainda assim, o presidente não conseguiu emplacar o nome de sua escolha na Petrobras, um movimento que ele começou a arquitetar há mais de um mês, em paralelo com as críticas à política de preços da estatal —que repassa ao valor cobrado na refinaria a flutuação nas cotações do dólar e do petróleo. A preocupação com o preço na bomba para o consumidor é especialmente maior em ano eleitoral, com a inflação acumulada em 12 meses em dois dígitos.

SEM AVAL DO COMITÊ

A dificuldade de ser aprovado pelo Comitê de Pessoas da Petrobras, que tinha reunião prevista para hoje, fez Pires desistir do convite. Este comitê, que analisa candidatos a altos cargos da companhia, tinha em mãos pareceres contrários às nomeações de Pires e Landim para a presidência da empresa e para a chefia do Conselho de Administração da estatal, respectivamente, de acordo com fontes do governo. Landim e Pires foram avisados desses pareceres e, então, decidiram desistir de ocupar os postos. O risco, sem a renúncia, era de ambos serem vetados pela própria Petrobras.

Ao longo do dia, o governo se debruçou sobre alternativas que pudessem ser aprovadas pelas regras de checagem da companhia. O movimento teria contado, segundo fontes próximas da estatal, com a participação do ministro Ciro Nogueira, da Casa Civil.

Carlos Seabra Suarez, nome polêmico do empresariado brasileiro que está na origem do veto ao sindicados pelo governo, tinha interesses conflitantes com a estatal e relações com os dois indicados para assumir a companhia. Baiano que era o “S” da antiga empreiteira OAS, começou sua carreira no setor imobiliário de Salvador, mas diversificou e chegou ao setor de energia. Ele foi investigado por crime ambiental e teve contas na Suíça bloqueadas por suspeita de lavagem de dinheiro apontadas na Operação Lava-Jato, mas nunca foi de fato condenado por estes crimes.

Ele é dono de diversas distribuidoras de gás em vários estados, algumas delas apenas no papel. São empresas que não têm nem um metro de gasoduto. Por isso, o empresário é um dos principais interessados em propostas que criam subsídios para a construção de gasodutos e de termelétricas em estados sem gás natural.

Suarez é figura conhecida em Brasília e com forte interlocução junto ao Congresso, especialmente com lideranças do Centrão — o grupo de partidos que apoia Bolsonaro. A desenvoltura política de Pires também era um dos atributos que o levou ao convite para assumir a Petrobras. Procurado, Suarez não respondeu ao pedido de entrevista do GLOBO. Ao Jornal Nacional, seu advogado afirmou que não conseguiu contato com o empresário, que segundo ele, está fora do país.

Com a desistência dupla, a Petrobras fica sem nomes para a Assembleia Geral de Acionistas, marcada para ocorrer no dia 13, na qual era esperado uma ampla renovação da companhia. A situação deixa a empresa à deriva, sem novos indicados e com um presidente que já foi demitido publicamente até a assembleia. Ontem o Ministério de Minas e Energia corria para encontrar nomes para os dois postos. Hoje, Bento Albuquerque se reúne com Jair Bolsonaro às 14h.