Valor Econômico, v. 23. n. 5701, 03/03/2023, Finanças, C2 
Após mais um pregão de perdas, Ibovespa retoma nível de dezembro
Arthur Cagliari, Augusto Decker, Gabriel Roca e Matheus Prado 

 

Em meio a uma degradação do cenário de juros global, que pressionou os mercados de capitais como um todo ontem, os ativos locais voltaram a precificar, adicionalmente, uma piora na percepção dos agentes em relação à condução da política econômica pelo governo federal. A bola da vez é a Petrobras, que se manteve no foco e registrou queda firme na bolsa mesmo após apresentar balanço corporativo em linha com as estimativas dos agentes e anunciar dividendos robustos. 

O Ibovespa recuou 1,01%, aos 103.326 pontos, enquanto Petrobras ON e PN cederam 2,75% e 2,61%, respectivamente. Assim, o índice voltou a tocar a um patamar atingido pela última vez em 16 de dezembro de 2022, no auge da discussão da PEC da Transição. O dólar teve alta de 0,20%, cotado a R$ 5,2029. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 avançou de 13,32% do ajuste anterior para 13,38%; e a do DI para janeiro de 2027 saltou de 13,025% para 13,25%. 

Participantes do mercado seguiram demonstrando desconforto com as indefinições relacionadas à política econômica, na medida em que a decisão do governo de taxar as exportações de petróleo, anunciada na quarta-feira, voltou a ampliar temores de adoção de medidas heterodoxas para a solução de problemas fiscais. Além disso, declarações relacionadas ao nível de juros e aos negócios da Petrobras também impactaram o humor do investidor. 

A estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patricia Pereira, avalia o cenário doméstico como bastante desafiador e diz que, até o momento, as sinalizações emitidas pela nova administração são ruins. “Houve muitos equívocos na decisão de reonerar os combustíveis e, mesmo para chegar em uma decisão final ruim, deve ter sido uma batalha muito difícil para o ministro da Fazenda”, afirma. 

Segundo ela, a decisão de taxar a exportação de óleo cru acaba atingindo o setor privado de petróleo como um todo e tornando a própria Petrobras menos eficiente. “Não dá para falar com tanta propriedade que não haverá perda fiscal porque não dá para saber como vão ficar os dividendos, que é uma receita que acaba entrando no cofre do governo”, afirma. 

Nessa linha, e após a empresa anunciar que irá distribuir R$ 35,8 bilhões em proventos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente a notícia de que a estatal foi a segunda maior pagadora de dividendos do mundo em 2022 e afirmou que a companhia precisa investir mais, aumentando os temores de intervenção. Já o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, voltou a dizer que a política de preços de combustíveis do país é uma questão de governo e que a empresa vai praticar preços competitivos no território nacional para garantir mercado. 

“Acreditamos que tanto o estatuto da empresa quanto a Lei das Estatais estão em risco, com fortes indícios de que o governo pretende usar a Petrobras para estimular maiores investimentos no país, subsidiar preços de combustíveis e promover diversificação acelerada em segmentos renováveis. Embora não possamos descartar a criação de um fundo de estabilização subsidiado pelos dividendos da empresa, que alinharia melhor os interesses do governo e dos minoritários, achamos que é uma aposta arriscada no momento”, escreveram analistas do BTG Pactual. 

A equipe do BB Investimentos afirmou que, considerando “o excelente resultado financeiro, uma alavancagem baixa e boas perspectivas operacionais” da empresa, segue otimista com Petrobras. Entretanto, entende como pertinente a preocupação com mudanças que sejam muito desfavoráveis aos minoritários, notadamente na política de preços, pois, ainda que exista espaço para uma revisão que passe a considerar os preços domésticos no cálculo, uma mudança que passe a gerar prejuízos para a Petrobras, como aconteceu no passado, pode levar a retornos consideravelmente menores, o que mudaria a tese de investimentos da companhia. 

Já o analista, diretor de pesquisas e sócio da Quantzed, Leandro Petrokas, opina que os preços atrativos das ações da Petrobras não têm sido suficientes para atrair compradores justamente porque as incertezas se impõem. Adicionalmente, ele aponta que os ruídos em torno da petroleira têm impactado as ações do Banco do Brasil, apesar de a instituição financeira ter apresentado balanço forte. Ontem, BB ON caiu 4,03%. 

O dia também foi de pressão externa, após dados de custo de mão-de-obra dos EUA e de inflação na zona do euro terem surpreendido as estimativas de consenso, o que impulsionou o dólar e provocou abertura das curvas de juros.