Valor Econômico, v. 23. n. 5701, 03/03/2023, Agromegócios, B9
Alta de preços reduz consumo de café
Érica Polo
Com os aumentos de preços do café nos pontos de venda em 2022, que foram, em média, 35,4%, o consumo recuou 1,01%, para 21,3 milhões de sacas, informou ontem a Abic, associação que reúne as torrefadoras. A perda de poder de compra do consumidor também teve influência sobre as vendas.
Consolidado, o mercado de café no Brasil não experimentava uma queda de consumo decorrente de contexto econômico adverso desde 2013, quando o país consumiu 20,1 milhões de sacas, ou 1,2% a menos que em 2012. Os dados da Abic também mostram quedas em 2018 e 2019, mas, nesses casos, o recuo deveu-se a mudanças de metodologia.
“Há uma expectativa de retomada para 2023”, disse Pavel Cardoso, presidente da Abic, em conversa com jornalistas. O volume em 2022, que corresponde ao consumo entre novembro de 2021 e outubro do ano passado, representou quase 42% da safra que foi colhida nas lavouras brasileiras - considerada a projeção da Conab.
Matéria-prima
A alta de preços da matéria-prima (café verde), que foi de mais de 100% nos últimos dois anos, explica o reajuste dos preços do produto nas gôndolas, que foi sendo aplicado ao longo de 24 meses. A safra foi afetada por problemas climáticos. Segundo Celírio Inácio, diretor executivo da Abic, com base nos cálculos que consideram a alta de custos e o reajuste aplicado até agora pela indústria, há ainda uma necessidade de repasse represada de cerca de 23%.
No momento, não está claro se esse “resto” de reajuste ocorrerá em 2023. Cardoso lembra que as torrefadoras ainda precisam visualizar claramente o cenário de oferta da próxima safra para definir suas estratégias.
Ainda segundo a Abic, o Brasil continua sendo o segundo maior consumidor global de café, logo depois dos Estados Unidos - diferença entre os dois países é de quase 5 milhões de sacas. O consumo per capita de café cru entre os brasileiros foi de quase 6 quilos por ano e de 4,77 quilos de café torrado - nos dois casos, a queda em relação a 2021 foi de 1,61%.
Impulsionada pela alta de preços da matéria-prima no campo, a receita das torrefadoras subiu 55% no ano passado, para R$ 23,5 bilhões. Os preços do grão verde usado como matéria-prima, que representa cerca de 70% do custo, aumentaram mais de 120% no último ano.
Faturamento
O faturamento do setor ficou próximo do patamar esperado pela indústria. Em entrevista concedida ao Valor em julho do ano passado, Cardoso projetou que as torrefadoras poderiam faturar perto de R$ 23 bilhões em 2022.
No elo varejista, a receita com as vendas de café somou R$ 30,5 bilhões no ano passado. Em 2021, a mesma conta havia chegado a R$ 22,5 bilhões, de acordo com a Abic. Os cafés tradicional e extraforte responderam por quase 90% das vendas nos canais de distribuição, segundo a entidade.
Com os aumentos de preços no campo, o café se destacou entre os produtos da cesta básica que mais encareceram no ano passado. O reajuste médio da cesta básica foi de 9,1% em 2022, ano em que o café subiu pouco mais de 35%. Depois, na sequência, aparecem feijão (22,5%) e leite (20,7%).
Os dirigentes da Abic rememoraram durante a conversa que a entidade está reestruturando seus programas de autorregulamentação setorial, o Selo de Pureza e o Programa de Qualidade do Café (PQC). As mudanças ocorrem após a publicação, em janeiro, da Portaria 570 do Ministério da Agricultura, que regulamenta o café torrado.