O Globo, n 32.384, 06/04/2022. Brasil, p. 09
DITO E REDITO
Paula Ferreira e André de Souza
Prefeitos confirmam no Senado acusações a pastores do MEC
Em depoimento a senadores da Comissão de Educação, três prefeitos que acusaram os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura de pedir propina pela liberação de verbas do Ministério da Educação confirmaram as denúncias e deram detalhes sobre as cobranças. Os pastores pediram a compra de bíblias, ouro e disseram que os políticos são um “bando de malandros”.
O prefeito Kelton Pinheiro, de Bonfinópolis (GO), confirmou que Arilton pediu a compra de bíblias e, posteriormente, propina, como revelou o GLOBO.
Kelton afirmou que antes de uma reunião em Brasília em 11 de março com o ministro Milton Ribeiro teve um encontro em Goiânia com os pastores. Arilton teria perguntado quais os pedidos do prefeito e dito que ele poderia comprar bíblias para ajudar na construção da sede de uma igreja:
— (Perguntei) “Qual o motivo de o senhor estar me chamando e oferecendo essa ajuda”? Ele disse: “Não tem nenhum motivo específico. O pastor Gilmar está indicando você e você vai dar contribuição para igreja. Compra umas bíblias que ele está vendendo para construir a sede da igreja. Ajudando a igreja está bom demais”. Até esse momento achei normal um pastor pedindo para ajudar na construção de igreja. Perguntei: “Quantas seriam?” E ele disse: “umas mil bíblias”. Eu disse: “qual o valor delas?”. Ele disse: “R$ 50”.
O prefeito afirmou que negou a oferta. Kelton contou que, apesar da negativa, a reunião no MEC foi mantida. Assim, dias depois, recebeu um telefonema de uma pessoa chamada Nely perguntando se compareceria ao encontro.
Após a reunião com o ministro, o presidente do FNDE, “(Arilton) me abordou: ‘Vi que seu ofício está pedindo a escola que deve custar R$ 7 milhões de recursos, mas eu preciso de R$ 15 mil na minha mão hoje. Faz a transferência comigo hoje, porque vocês políticos são um bando de malandro’”
Kelton Pinheiro, prefeito de Bonfinópolis Marcelo Ponte, e também com os dois pastores, o prefeito foi a um almoço no restaurante Tia Zélia em que Arilton pediu propina.
— (Arilton) me abordou de forma muito direta e disse: “Vi que seu ofício está pedindo a escola que deve custar R$ 7 milhões de recursos, mas é o seguinte, eu preciso de R$ 15 mil na minha mão hoje. Faz a transferência comigo hoje, porque isso não cola comigo, porque vocês políticos são um bando de malandro”. Aquilo me deu ânsia de vômito — contou Kelton .
Segundo o Jornal Nacional, da TV Globo, embora não fosse funcionária do MEC, uma mulher chamada Nely Carneiro participava de reuniões na pasta.
Gilberto Braga, prefeito de Luís Domingues, no Maranhão, repetiu no Senado que teria recebido pedido de pagamento de propina em ouro, como contou ao jornal O Estado de S. Paulo. O pedido foi feito em um almoço depois de uma palestra no MEC, em 7 de abril do ano passado.
— Nesse almoço, em que não estava o ministro, só os dois pastores, tinha uma faixa de 20 a 30 prefeitos e a conversa era muito aberta. Ele (Arilton) virou para mim e disse: “Cadê suas demandas?”. Eu apresentei e ele falou rapidamente: “Você vai me arrumar os R$ 15 mil para eu protocolar as suas demandas e depois que o recurso estiver empenhado, como a sua região é de mineração, você vai me trazer um quilo de ouro”. Eu não disse nem que sim nem que não, me afastei da mesa.
Gestor de Boa Esperança do Sul (SP), José Manoel de Souza relatou que foi a um almoço com os pastores no hotel Grand Bittar, em Brasília. No local, segundo ele, Arilton teria dito:
— “Prefeito, você bem sabe como funciona, né?”. Eu disse: “não”. Ele disse: “Prefeito, o Brasil é muito grande, nós temos mais de 5.600 municípios. Não dá para ajudar todos os municípios”. Eu disse: “não dá, pastor?”. Ele falou: “mas eu consigo te ajudar”.
“PASTOR, NÃO É ASSIM”
Souza afirmou que Arilton Moura sugeriu que conseguiria uma escola profissionalizante:
— (Arilton disse) “Você assina um ofício, eu já coloco no sistema e, em contrapartida, você deposita R$ 40 mil na conta da igreja evangélica. Eu bati nas costas dele e falei: “pastor, muito obrigado, mas para mim não serve, não é desse jeito que funciona”.
Inicialmente, nove prefeitos foram convidados para detalhar as denúncias aos senadores, mas apenas cinco compareceram. Helder Aragão, de Anajatuba, e Calvet Filho, de Rosário, ambos municípios do Maranhão, negaram terem recebido pedidos de propina.
O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) já obteve 14 assinaturas favoráveis (são necessárias 27 para abrir a CPI). Mas o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), pediu ontem cautela:
— É preciso ter cautela com instrumentos do Legislativo que possam soar com viés eleitoral.
Ribeiro prestou depoimento à Controladoria-Geral da União na segunda-feira. O ex-ministro disse desconhecer os pedidos de propina.
Leia em : https://infoglobo.pressreader.com