O Globo, n 32.384, 06/04/2022. Mundo, p. 19
DRAMA DE BUCHA E LEVADO A ONU
Filipe Barini
POR VÍDEO, ZELENSKY PEDE PUNIÇÃO DA RÚSSIA
Em discurso por vídeo ao Conselho de Segurança da ONU, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou a Rússia de realizar “os piores crimes de guerra” desde o fim da Segunda Guerra Mundial e defendeu uma punição imediata a Moscou, incluindo a expulsão do país do órgão, algo que não tem quase nenhuma chance de ocorrer.
Em uma sessão destinada a discutir as denúncias de graves violações das leis de guerra atribuídas às forças russas na cidade de Bucha, negadas mais uma vez pelo representante da Rússia, Zelensky afirmou que “não houve um crime que eles [Rússia] não tenham cometido” na cidade, e detalhou o que ele afirma ter visto em visita à região, na segunda-feira.
—Os militares russos atacaram e mataram propositalmente todos que serviram nosso país. Atiraram em mulheres do lado de fora de suas casas quando elas tentavam perguntar se alguém estava vivo. Mataram famílias inteiras, adultos e crianças, e tentaram queimar os corpos —declarou Zelensky.
— Cortaram seus membros, cortaram suas gargantas, mulheres foram estupradas e mortas diante de seus filhos. Suas línguas foram cortadas apenas porque seus agressores não queriam escutar o que tinham a dizer.
Ele acusou os russos de obrigar milhares de ucranianos a se abrigarem em seu território, e disse que Moscou pretende transformar os ucranianos em “escravos”. Segundo Zelensky, a Rússia deportou milhares de ucranianos e “sequestrou mais de duas mil crianças ”. Ele voltou a dizer que a versão russa para as mortes em Bucha, de que as ações teriam sido cometidas pelos próprios ucranianos, não passa de mentira, e citou casos como o do avião da Malaysia Airlines, abatido no Leste ucraniano em 2014 — investigadores internacionais apontaram que a aeronave foi atingida por um míssil fornecido por Moscou a separatistas pró-Rússia, mas essa versão jamais foi aceita pelo Kremlin.
Agora, disse esperar que “as mesmas mentiras” sejam contadas pelo lado russo.
— Vão dizer que há muitas versões, que é impossível estabelecer qual é a real. Eles vão até dizer que os corpos foram jogados fora de maneira proposital, e que os vídeos foram encenados, mas vivemos em 2022 agora —declarou, apontando que massacres similares ocorreram em outras cidades e ainda não foram revelados.
Zelensky defendeu que todos os envolvidos sejam julgados por crimes de guerra, e prometeu dar acesso completo a todas as informações disponíveis a jornalistas, instituições internacionais e até ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para que, segundo ele, “a verdade seja estabelecida”. O presidente defendeu que a Rússia seja excluída do Conselho, e pediu reformas para eliminar o direito de veto, garantido desde a criação da ONU às cinco potências que saíram vitoriosas da Segunda Guerra.
Antes de iniciar sua intervenção, o representante russo, Vassily Nebenzia, disse que levaria uma grande quantidade de evidências para defender a posição do Kremlin, de que seu país está em uma missão justificada na Ucrânia para “desnazificar” o país, eliminar milícias nacionalistas e proteger a população — segundo ele, os ataques contra civis estão sendo realizados pelos próprios ucranianos, apesar de evidências de governos e independentes apontarem para ataques dos russos. No entanto, nada apresentou.
— Nós não viemos para a Ucrânia para conquistar territórios —disse Nebenzia.
RUSSO VÊ ‘INCOERÊNCIAS’
O diplomata afirmou que os avanços das tropas estão sendo mais lentos do que o esperado porque elas estão “evitando ataques contra civis”, e disse ver “incoerências” nas acusações relacionadas à morte de civis em Bucha: ali, repetiu a versão que circula na imprensa oficial há dias, de que, quando as forças de Moscou deixaram a cidade, no dia 31 de março, não havia corpos nas ruas. Tal narrativa foi contestada por imagens de satélites e depoimentos da população local, algo chamado por Nebenzia de “notícias falsas”.
O embaixador refutou a acusação de Zelensky de que cidadãos ucranianos teriam sido obrigados a seguir para a Rússia, afirmando que todos foram de maneira voluntária.
Já o embaixador chinês, Zhang Jun, disse que as denúncias de massacre de civis são “muito perturbadoras” e pediu que sejam investigadas, mas voltou a criticar as sanções impostas pelos países ocidentais e a pedir diálogo entre Moscou, Washington e os europeus para solucionar a crise.