O Globo, n 32.385, 07/04/2022. Mundo, p. 16

NA BOLSA DAS 'BABUSHKAS'

André Duchiade


EUA ENDURECEM SANÇÕES CONTRA RÚSSIA, MAS UE NÃO CHEGA A CONSENSO

Os Estados Unidos anunciaram um novo pacote de duras sanções contra a Rússia ontem, com ações que atingem cidadãos comuns, em uma significativa intensificação de suas punições econômicas contra Moscou pela invasão da Ucrânia. Por outro lado, a União Europeia (UE) não conseguiu alcançar o acordo que anunciará na véspera e adiou a decisão de banir importações de carvão russo, evidenciando as dificuldades do bloco para chegar a consensos e impor punições que atinjam o fornecimento de energia pela Rússia.

As novas sanções acontecem após uma onda de indignação provocada por denúncias de supostos crimes de guerra da Rússia contra civis em cidades da Ucrânia agora desocupadas pelas tropas do país, como Bucha, nos arredores de Kiev.

Os EUA imporão um bloqueio total do Sberbank, que detém um terço dos ativos bancários da Rússia, e do Alfabank, maior banco privado russo. A Casa Branca também determinou, segundo comunicado, “a proibição de novos investimentos na Rússia por americanos, onde quer que estejam, o que isolará ainda mais a Rússia da economia global”.

Além disso, os EUA também sancionaram as duas filhas adultas do presidente russo, Vladimir Putin, a mulher e a filha do chanceler Sergei Lavrov,e membros do Conselho de Segurança da Rússia. Washington também impediu a Rússia de usar mais de US$ 600 milhões em reservas congeladas mantidas em bancos americanos para pagar os detentores de sua dívida soberana, o que força Moscou a escolher entre gastar reservas domésticas em dólares ou calote.

Em seu conjunto, as medidas foram descritas pelo presidente Joe Biden como “uma rodada de sanções devastadoras”. “Essas medidas são projetadas para reforçar umas as outras para gerar um impacto intensificado ao longo do tempo ”, acrescentou a nota da Casa Branca.

O Reino Unido também congelou os ativos do Sberbank e do Banco de Crédito de Moscou, e disse que encerrará todas as importações de carvão e petróleo russos até o final de 2022, em um aumento das sanções destinadas a“matara máquina de guerra de Putin”. Outros oito empresários russos também foram punidos. 

INVESTIMENTOS PROIBIDOS

O pacote americano é considerado por especialistas como o mais duro anúncio de punições contra Moscou em mais de um mês.

— O Sberbank é o maior banco da Rússia, é onde as babushkas e os dedushkas (vovós e vovôs) fazem seus depósitos. Originalmente, fora excluído para mostrar que os russos não eram o alvo, mas sim o governo. Agora superamos esse incômodo — disse Elina Ribakova, economista chefe do Instituto Internacional de Finanças (IIF).

Segundo Eddie Fishman, economista do Centro para uma Nova Segurança Americana (CNSA), de Washington, este foi o maior pacote de punições contra Moscou desde as sanções que congelaram as reservas em dólares e euros do Banco Central da Rússia há mais de um mês. A proibição de investimentos de americanos na Rússia significa que empresas que saíram do país “não podem voltar correndo assim que acharem que há dinheiro a ser feito”.

— Também vai persuadir qualquer retardatário a deixar o mercado russo agora.

No entanto, apesar de as medidas poderem aumentar as dificuldades econômicas para os russos, não afetam as receitas de energia da Rússia, a força vital de sua economia. A dependência europeia da energia russa contribui para adiar a imposição de sanções ao setor.

A Rússia fornece cerca de 40% do consumo de gás natural da União Europeia. Segundo Fishman, o pacote “não aborda a maior fraqueza nas sanções: as contínuas vendas de petróleo e gás da Rússia, que rendem US$ 1 bilhão por dia para o Kremlin. Enquanto essa lacuna existir, a pressão das sanções terá um limite”.

Esta dificuldade europeia ficou clara ontem: um anúncio esperado de banimento das importações de carvão russo, equivalentes a US$ 4 bilhões por ano, foi adiado após uma reunião em Bruxelas. A medida seria um primeiro golpe no setor de energia da Rússia. Embora supostamente já tenham concordado em bloquear o carvão da Rússia e fontes ouvidas pela Reuters aleguem motivos técnicos para o adiamento, países da UE continuam divididos sobre se e como restringir os setores de gás e petróleo russos, fundamentais para suas economias.

ORBÁN PAGARÁ EM RUBLOS

As divisões ficaram aparentes na segunda-feira, quando o ministro das Finanças austríaco, Magnus Brunner, expressou oposição às sanções ao petróleo e gás russos, alegando que isso prejudicaria mais a Áustria do que a Rússia. Horas antes, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que os assassinatos de civis deixaram clara a necessidade de uma nova rodada de sanções contra a Rússia, incluindo o petróleo e carvão.

Em vídeo divulgado na madrugada de hoje, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky,disse que a última rodada de sanções não é suficiente e afirmou que a hesitação ocidental em atingir o petróleo russo está “custando vidas ucranianas”.

Em outra brecha na UE, o O governo da Hungria, que há anos mantém relações amigáveis com a Rússia e tens as com a liderança do bloco, se disse disposto a usar rublos para pagar Moscou pelo fornecimento de gás, como exigido pelo Kremlin.O sinal amigável ao governo russo foi comunicado pelo recém reeleito ultraconservador premier húngaro, Viktor Orbán, em uma entrevista coletiva em Budapeste.