Valor Econômico, v. 23. n. 5704, 08/03/2023, Opinião, A11
Governo muito focado nas ‘bondades’
Nilson Teixeira 

 

O ciclo político estimula o governo a iniciar o seu mandato por ajustes e alterações da legislação de maior envergadura, geralmente com custos de curto prazo para parte ou mesmo toda a sociedade - “maldades”. A aprovação dessas propostas costuma contar com a boa vontade dos parlamentares no 1º ano da nova legislatura. A janela para tramitação dessas medidas diminui já no 2º ano do mandato, por conta do desgaste no relacionamento parlamentar e da realização de eleições municipais em outubro. Assim, os últimos anos são mais dedicados às concessões de benefícios - “bondades”, muito mais fáceis de serem aprovadas. 

É preciso reduzir ou eliminar renúncias tributárias que trouxeram poucos benefícios aos pobres 

Diferentemente do padrão usual, os primeiros três meses do governo Lula têm sido marcados pela distribuição de “bondades” em muitas frentes, com poucas contrapartidas em termos de corte de despesas ou de aumento das receitas, como, respectivamente, o corte do subsídio sobre os preços de combustíveis e a imposição temporária de imposto de exportação no óleo cru. 

 

A despeito de algumas dessas medidas serem totalmente justificáveis, o crescimento dos gastos públicos para a distribuição de “bondades”, em um ambiente de contas públicas desajustadas, introduz riscos adicionais à obtenção de um equilíbrio fiscal permanente. 

A Reforma Tributária ganha, assim, maior importância sob a esperança de que o aumento da eficiência do sistema tributário reduza as distorções, estimule a poupança e eleve o consumo e os investimentos. Não obstante, há muitos obstáculos. 

A calibração do sistema não será fácil, ainda mais em função de promessas de que não haverá alta da carga tributária. Grupos de interesse e parlamentares de diversas correntes políticas já se movimentam para garantir a preservação ou mesmo a ampliação das renúncias tributárias, como as associadas ao Simples e à Zona Franca de Manaus. A despeito das evidências comprovando que muitas dessas vantagens não trouxeram quase nenhum dos ganhos prometidos em termos de emprego, produtividade e exportações, membros do governo continuam sensíveis ao discurso vazio que protegeu esses privilégios nas últimas décadas. 

Em outra frente, a fantasia de que o corte de juros resulta sempre em maior crescimento econômico - sem pressionar a inflação e reequilibrando as contas públicas por meio do aumento da arrecadação - tem colocado sob lupa a gestão monetária e a meta de inflação. O clamor de que é possível reverter o aperto monetário e reduzir sacrifícios exagerados demandados da sociedade com a simples elevação da meta de inflação pode até soar bem para muitos, mas a história ensina que essa proposta não tem nenhuma sustentação à luz das evidências, como atestam as experiências da Argentina e da Turquia. 

Infelizmente, não há atalhos para elevar o crescimento potencial do país. Apesar de doces, as promessas sopradas por alguns grupos são inalcançáveis. O governo precisa se convencer de que não é possível continuar com a promoção de “bondades” sem impor “maldades” no curto prazo. Nesse sentido, o Executivo e o Legislativo precisam promover ajustes duros, como o aumento de impostos sobre os mais ricos e a redução ou eliminação de renúncias tributárias que trouxeram pouquíssimos benefícios para os mais pobres.