Valor Econômico, v. 23. n. 5705, 09/03/2023, Brasil, A6
Questão fiscal derruba avaliação de clima econômico no Brasil no começo do ano diz FGV Ibre
Alessandra Saraiva 

 

Dúvidas em relação à questão fiscal brasileira levaram à piora no Índice de Clima Econômico (ICE) do Brasil, na passagem do quarto trimestre de 2022 para o primeiro trimestre de 2023, que caiu de 84,5 pontos para 73,5 pontos, informou nesta quarta-feira (08) a Fundação Getulio Vargas (FGV). 

“Foi uma queda grande”, admitiu Lia Valls, economista da fundação responsável pelo indicador, que faz parte da Sondagem da América Latina, pesquisa veiculada hoje pela FGV 

Ela pontuou que o ICE brasileiro foi na contramão do clima econômico latino-americano, mensurado pela mesma sondagem e que subiu de 66,5 pontos para 73,4 pontos, no mesmo período. 

A sondagem é elaborada a partir de informações prestadas trimestralmente por especialistas nas economias de seus respectivos países. Ao detalhar as razões de os analistas terem avaliado clima econômico menos favorável no país, no começo de 2023, a especialista citou o período de coleta, do levantamento. 

Ela explicou que a sondagem, mesmo com período referente ao primeiro trimestre do ano, leva em conta avaliações apuradas em janeiro e até meados de fevereiro. Nesse período, notou ela, sabia-se menos sobre o cenário fiscal brasileiro, bem como sobre possível novo arcabouço fiscal do país, do que hoje – o que elevou incertezas, por parte do mercado. 

Esse sentimento de maior dúvida, em relação ao tema fiscal no cenário brasileiro, levou a uma piora em relação às respostas sobre momento presente, usadas para cálculo do ICE brasileiro, detalhou a especialista. 

Isso é perceptível na evolução dos dois sub-indicadores componentes do indicador de clima econômico. 

De janeiro para fevereiro, o Índice de Situação Atual (ISA) do Brasil caiu de 92,3 pontos para 70,6 pontos – enquanto o Índice de Expectativas (IE) recuou de forma menos intensa, de 76,9 pontos para 76,5 pontos. 

No entanto, ao ser questionada se o ICE poderia melhorar no próximo resultado, que será referente ao segundo trimestre – tanto a sondagem quanto o indicador tem periodicidade trimestral – visto que já se tem mais informação hoje sobre o fiscal do país, a técnica foi cautelosa. 

“Não se pode afirmar que vai voltar a subir [o clima econômico] porque o resultado do indicador não depende somente do fiscal, embora este seja importante”, afirmou. 

A pesquisadora lembrou que para 2023 há projeção de crescimento menor da economia brasileira, ante 2022. “Temos a questão da inflação, que pode aumentar, e da desaceleração maior do consumo das famílias”, disse, enumerando fatores do mercado doméstico que influenciam respostas usadas para cálculo do índice. 

E pelo lado externo, a técnica lembrou que ainda há a questão da China, “motor” da atividade econômica global, e que também sinaliza crescimento menor para este ano, ante ano passado. 

“Temos um cenário pior [para a economia no Brasil] esse ano do que foi ano passado”, resumiu ela, admitindo que isso pode influenciar os próximos desempenhos do ICE.