O Globo, n 32.386, 08/04/2022. Economia, p. 13
Reajuste salarial pode “destruir” a economia, afirma ministro
Manoel Ventura
Para Guedes, medida traria de volta a lógica de indexação. Servidores pressionam por aumento
No momento em que o governo Jair Bolsonaro discute reajuste para servidores públicos e diversas categorias se mobilizam por aumentos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ontem que um aumento para todos poderia “destruir” a economia. Na avaliação dele, isso reviveria a lógica da indexação do período de hiperinflação, anterior ao Plano Real.
—Se começar a dar reajuste para todo mundo, nós estamos empurrando o custo para filhos e netos, além de destruirmos a nossa economia também. Porque nós vamos voltar à lógica da realimentação inflacionária, de indexar tudo outra vez —disse Guedes.
O governo discute um aumento linear de 5% para os servidores, que seria concedido a partir de julho. Outro cenário em estudo é conceder aumento apenas aos policiais federais, promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro, que ampliou a insatisfação de outras categorias. No entanto, a paralisação de servidores, como os do Banco Central, fez com que integrantes do governo voltassem a reavaliar um reajuste salarial linear.
O governo bloqueou no mês passado R$ 1,7 bilhão do Orçamento por falta de espaço no teto de gastos (regra que limita o crescimento das despesas públicas). O espaço de R$ 1,7 bilhão para reajustes, por outro lado, foi preservado.
Um reajuste salarial tende a apertar mais as contas públicas, sendo necessário fazer cortes. Diversos governadores já concederam aumentos de salários, aumentando a pressão sobre o governo federal.
— Agora tem dois campos. Um campo que partiu para o populismo, de dar aumento salarial num momento que ainda está combatendo a crise. E outro que diz ‘olha, espera um pouco, espera a doença ir embora e, depois, nós vamos reavaliar e dar aumentos salariais’ —disse Guedes.
O ministro descartou repor a inflação nos reajustes. A inflação em 12 meses passa de 10%:
— Durante a pandemia a gente gasta com a pandemia e depois, aí sim, você começa a reparar alguns que ficaram para trás. Não pode ter a lógica passada de reposição. “Ah, vou repor”. Se houve queda, uma perda… Nós somos uma geração que pagou pela guerra.