Valor Econômico, v. 23. n. 5705, 09/03/2023, Opinião, A15
Fed rumo à estabilidade de preços
Frederic Mishkin 

 

Em 2021-2022, em decorrência de falhas na estrutura de sua política monetária, o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) demorou demais para apertar sua política monetária. O resultado foi um aumento na inflação a patamares que não se viam há 40 anos. 

A partir de março de 2022, o Fed deu uma guinada dramática e elevou sua taxa referencial de juros em um total de 4,5 pontos percentuais. 

A atual tentativa do Fed de administrar uma “desinflação” levanta muitas questões importantes. Será que o banco central conseguirá fazer a inflação voltar a sua meta de um patamar de 2% ao ano no futuro próximo? Será que ainda precisará apertar sua política monetária muito além do que já fez, e por quanto tempo deveria manter os juros em um patamar elevado? Qual será o custo para que o Fed alcance sua meta para a inflação? Como o Fed deveria equilibrar o risco de uma recessão enquanto busca atingir a meta inflacionária? 

A taxa de juros terá que subir cerca de 1 ponto percentual para recolocar a inflação rumo aos 2%, e o índice de desemprego provavelmente subiria mais de 1 ponto percentual. A taxa precisaria continuar acima de 5% em uma boa parte de 2024 

Em estudo que escrevi com Stephen Cecchetti, Michael Feroli, Peter Hooper e Kermit Schoenholtz recém-apresentado no Fórum de Política Monetária dos EUA, observando registros históricos e modelos econômicos, damos algumas respostas a essas questões. 

A boa notícia é que o prognóstico quanto a uma reorientação da inflação para que volte à meta do Fed agora é bastante favorável. Apesar dos erros anteriores, o abandono do gradualismo por parte do Fed e seu aperto agressivo da política monetária iniciado há um ano foram capazes de voltar a ancorar as expectativas inflacionárias de longo prazo no patamar de 2%. 

A má notícia é a alta probabilidade de que atingir a meta de inflação do Fed resulte em recessão. Examinamos as evidências históricas das 16 grandes desinflações induzidas por políticas monetárias em vários países. Em todos os casos, apertos monetários da magnitude que estamos vendo nos EUA para reduzir a inflação resultaram em aumento no desemprego. Nas atuais circunstâncias, que já envolvem um grande aperto monetário e a perspectiva de mais contenção à frente, uma “desinflação imaculada” seria algo sem precedentes. 

Nossos modelos sinalizam que o Fed ainda tem algum caminho a percorrer no aperto da política monetária. A taxa de juros terá que subir cerca de 1 ponto percentual em relação ao nível atual para recolocar a inflação rumo aos 2%, e o índice de desemprego provavelmente subiria mais de 1 ponto percentual em relação ao nível atual. Nossa análise indica que a taxa precisaria continuar acima de 5% em uma boa parte de 2024. 

Ainda mais importante, o Fed precisa resistir à tentação de afrouxar a política monetária cedo demais, como fez no passado algumas vezes quando se viu diante de desacelerações econômicas. 

Uma mudança prematura de direção enfraqueceria a credibilidade do Fed no controle da inflação e exigiria que o banco central elevasse os juros a níveis ainda mais dolorosos para estabilizar a inflação. 

Essa é a lição tirada da desinflação de 1979 a 1983 quando o Fed foi presidido por Paul Volcker. A partir de outubro de 1979, o Fed elevou os juros a até 17% em março de 1980. Em resposta à recessão resultante, cedeu e começou, em abril de 1980, a reduzir os juros em mais de 7 pontos percentuais. A credibilidade do Fed perdeu força, com as expectativas inflacionárias e a inflação mantendo-se teimosamente altas. 

Para restabelecer a credibilidade, o Fed, então, começou a elevar os juros para um patamar sufocante, próximo a 20% no início de 1981, e os manteve elevados até meados de 1982. As expectativas inflacionárias e a inflação iniciaram um declínio constante até cerca de 3% em 1983. No entanto, o índice de desemprego subiu para 10,8% em 1982. O custo dessa guinada foi realmente muito alto. 

Com base em nossa análise, olhando em retrospectiva, vemos como um erro significativo o fato de o Fed ter deixado de agir preventivamente em 2021 diante da forte demanda. 

No entanto, nos sentimos encorajados pelas ações agressivas de política monetária do banco central nos últimos 12 meses e pelos recentes comentários de seu presidente, Jay Powell, e de outras autoridades, dizendo que há mais trabalho a fazer para estabilizar a inflação. Ainda na terça-feira, Powell disse à Comissão Bancária do Senado que se a “totalidade dos dados” indicarem a necessidade de um aperto ainda mais rápido, o Fed está preparado para aumentar o ritmo da elevação dos juros. 

Além disso, Powell e as autoridades ressaltaram que a possibilidade de uma recessão como resultado do aperto monetário não deveria impedir o Fed de fazer o que for necessário para controlar a inflação. Apesar do início problemático, o banco central agora parece estar no rumo certo para restaurar a estabilidade dos preços. (Tradução de Sabino Ahumada)