O Globo, n 32.386, 08/04/2022. Brasil, p. 10
Alunos de professores ruins têm menos renda
Bruno Flávio
Pesquisa aponta que quem aprendeu com docentes de desempenho abaixo da média perde R$ 34 mil ao longo da vida
Estimativas realizadas por pesquisadores da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) mostram que, se um aluno que tem aula com os 10% piores professores passasse a ter aula com os profissionais de desempenho médio, a sua renda seria 8% maior ao longo da vida profissional. Isso significa R$ 34 mil, já que, segundo pesquisa liderada pelo economista Ricardo Paes de Barros citado pelo estudo da Enap, a renda média total de uma pessoa com ensino médio completo pode chegar a aproximadamente R $427 mil.
O resultado é do estudo “Grandes Mestres Fazem Grandes Diferenças? Valorizando a contribuição do Professor para o desempenho do Aluno da Educação Básica”, do Instituto Millenium.
O artigo, assinado por Diana Coutinho e Claudio D. Shikida, ambos da Enap, defende que o ensino brasileiro atual não é um exemplo de sucesso, considerando que professores com diferentes níveis de formação e de comprometimento são tratados igualmente em termos salariais.
Segundo a pesquisa do Instituto Millenium e da Enap, a categoria dos professores é uma das que têm as menores desigualdades salariais entre o piso e o topo da carreira.
— Será que a qualidade dos professores é realmente similar a ponto de os salários entre eles serem tão parecidos? O estudo nos mostra que não e também sinaliza que precisamos reconhecer e valorizar os melhores professores, inclusive financeiramente — afirma Diana Coutinho, diretora de Altos Estudos da Enap.
O artigo conclui que medir a qualidade dos professores e estimar seu impacto sobre o desempenho dos alunos é um importante passo no estímulo de práticas pedagógicas e de gestão que auxiliem na melhoria da qualidade do ensino. O estudo ainda sugere a necessidade de se repensar a contribuição do professor no desempenho de seus alunos por meio de políticas baseadas no chamado valor adicionado do professor (VAP), uma metodologia de avaliação de desempenho do profissional.
“A identificação dos professores com menores e maiores VAPs também permitiria a implementação de um sistema de aprendizado por pares, em que os professores com maior VAP poderiam servir como mentores de professores com menor VAP. Finalmente, a adoção de uma gratificação variável em função do VAP reconheceria e valorizaria os professores que mais contribuem para o aprendizado dos alunos e resultaria em uma remuneração que melhor reflete a contribuição de cada professor”, defendem os autores.
REAJUSTE NA BASE
O Brasil tem uma lei de cálculo do piso salarial para o magistério. Neste ano, o reajuste resultado da fórmula prevista na lei foi de 33% e os valores iniciais passaram de R$ 2,8 mil para R$ 3,8 mil. O aumento é pago, principalmente, pelos governos estaduais e municipais, que concentram a grande maioria dos professores e escolas públicas do Brasil.
Na prática, segundo a Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação, o reajuste tem sido aplicado mais na base da carreira, para elevar os vencimentos dos docentes neste estágio ao piso constitucional. Mas achatou mais a carreira, pois docentes em estágios mais avançados ganharam um percentual menor.
Um levantamento do Todos Pela Educação mostra que os professores da rede pública estão entre as categorias mais mal remuneradas do país. Os docentes ganhavam em 2020 apenas 78% da média recebida por outros trabalhadores com ensino superior.
—O salário inicial pesa muito para a atratividade da carreira ser tão baixa como é hoje. Pesquisas apontam que só 5% dos jovens pretendem ir para a docência — diz Gregório Grisa, doutor em Educação.