Valor Econômico, v. 23. n. 5705, 09/03/2023, Agronegócios, B9
‘Vaca louca’ afeta embarque de carne bovina parcialmente
Paulo Santos e Fernanda Pressinott
O Brasil exportou 152,2 mil toneladas de carne bovina (produtos in natura e processados) no mês passado, o que representou uma queda de 16% na comparação com fevereiro de 2022, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que elaborou o relatório com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A receita com as vendas ao mercado externo diminuiu 29% na mesma base de comparação, para US$ 695,2 milhões.
De acordo com a entidade, a queda refletiu apenas parcialmente a suspensão das exportações para a China, que aparecerão com mais clareza neste mês de março. As vendas de carne bovina brasileira ao mercado chinês estão suspensas desde o dia 23 de fevereiro, após o registro de um caso atípico do “mal da vaca louca” em um animal no Pará.
No primeiro bimestre, o volume total dos embarques da proteína caiu 1%, para 336,1 mil toneladas. A receita com as vendas ao exterior, por sua vez, diminuiu 13%, para US$ 1,546 bilhão.
A China continua a ser o maior importador da carne bovina brasileira. No acumulado do ano até fevereiro, as receitas com as vendas aos chineses recuaram 4,2% em comparação com o mesmo período de 2022, para US$ 840 milhões. O volume dos embarques, por outro lado, cresceu 22,6%, para 172,7 mil toneladas.
Segundo a Abrafrigo, o preço médio da carne vendida aos chineses foi de US$ 4.869 por tonelada no primeiro bimestre, ou 21,8% a menos do que os valores do mesmo período de 2022.
Os Estados Unidos foram o segundo maior comprador da proteína brasileira no primeiro bimestre, com importações de 35,6 mil toneladas (volume 18% menor que o do mesmo intervalo do ano passado), que movimentaram US$ 171,6 milhões (-25,6%). O volume das importações do Chile, o terceiro maior comprador, aumentou 1,6%, para 11,6 mil toneladas. A receita dos embarques ao mercado chileno caiu 2,3% para US$ 53,9 milhões.
Ao todo, 61 países aumentaram suas importações da proteína brasileira no primeiro bimestre, segundo a Abrafrigo, e 73 reduziram o volume de compras.
Já as exportações brasileiras de carne suína (in natura e processados) totalizaram 78,6 mil toneladas em fevereiro, volume 10% superior ao do segundo mês de 2022, informou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), também com base em dados da Secex. A receita dos embarques cresceu 25,4%, para US$ 184,9 milhões.
No primeiro bimestre, o volume dos embarques subiu 14,9% em relação ao mesmo intervalo do ano passado e chegou a 167,9 mil toneladas. A receita, por sua vez, cresceu 28,9%, a US$ 397,3 milhões.
“Os números do primeiro bimestre estão em linha com as projeções da ABPA, que indicam possível aumento das exportações de mais de 10% ao longo de 2023, que devem ser reforçadas pelas recentes aberturas de mercados. É o caso, por exemplo, das primeiras vendas para o mercado mexicano, que foram fechadas em fevereiro e logo chegarão ao país”, diz, em nota, o diretor de mercados da entidade, Luis Rua.
Maior importadora da carne suína brasileira, a China foi o destino de 73,1 mil toneladas no primeiro bimestre, um volume 37,8% maior que o do mesmo período de 2022. Hong Kong, com 14,9 mil toneladas (ou 4,9% a mais que em 2022), e Chile, com 13,5 mil toneladas (+93,6%), completam a lista dos três maiores compradores.
“Desde o segundo semestre do ano passado, as vendas de carne suína para a China voltaram a um ritmo próximo ao de 2021. A demanda asiática e o bom desempenho das vendas a parceiros das Américas, como o Chile, sinalizam um cenário positivo”, afirma o presidente da ABPA, Ricardo Santin.
Ipsis Litteris
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou ontem que o governo brasileiro prestou todas as informações sobre o caso atípico do mal da "vaca louca" à China e que, nos trâmites para o Brasil retomar as exportações de carne bovina, "a bola agora está com o governo chinês". Na noite da última terça-feira, as equipes dos dois países fizeram uma reunião virtual sobre o assunto.
Fávaro disse que deve antecipar sua ida à China neste mês e poderá fazer novos esclarecimentos presencialmente, se necessário. “Foi importante que esclarecêssemos ponto a ponto tudo o que estava questionado, e isso faz parte do protocolo”, afirmou. O ministro chegará à China no dia 22 de março. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem agenda em Pequim na semana seguinte, nos dias 28 e 29. (Rafael Walendorff)