O Globo, n 32.387, 09/04/2022. Economia, p. 15

Cenoura e tomate têm salto de 100% ao longo de um ano



Em abril, IPCA terá alívio temporário com fim da bandeira de Escassez Hídrica

Em março, a escalada de preços foi influenciada pelo aumento dos combustíveis. Mas outros produtos também passaram a pesar mais no orçamento do brasileiro, como os alimentos. Cenoura e tomate dobraram de preço em um ano. O primeiro acumulou alta de 166% em 12 meses, e o segundo, de 95%. O café acumula alta de 65%, e o açúcar, de 40%. Somente em março, a cenoura ficou 31,47% mais cara. O tomate subiu 27,22%.

Mês passado, tiveram aumento os preços do leite longa vida (9,34%), do óleo de soja (8,99%), das frutas (6,39%) e do pão francês (2,97%). Economistas esperam que a inflação acumulada em 12 meses atinja um pico no mês de abril e depois comece a arrefecer. No mês que vem, haverá alívio no índice com a decisão do governo de acabar com a bandeira de Escassez Hídrica nas contas de luz a partir do dia 16. Ainda assim, analistas afirmam que o efeito é temporário e não afeta a trajetória para o IPCA no ano. Caso o desempenho siga como previsto, será o segundo ano seguido que o Banco Central não conseguirá cumprir a meta de inflação, de 3,5% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual.

RECORDE GLOBAL

O aumento de preços de alimentos não ocorre apenas no Brasil. De acordo com o índice das Nações Unidas que acompanha os custos no mundo, os produtos tiveram disparada de preços de 13% em março e alcançaram patamar recorde. Desde meados de 2020, a alta já chega a 75%, superando os níveis recordes alcançados em 2008 e 2011, quando o mundo sofreu uma crise alimentar, segundo a FAO, agência da ONU para a Alimentação e Agricultura. Já são sete trimestres seguidos de alta de preços de alimentos.

A guerra na Ucrânia complicou um cenário que já era ruim para os preços de alimentos. Portos no Mar Negro estão fechados, a produção de grãos da Ucrânia — um dos grandes exportadores mundiais de trigo e de óleo de girassol — deve ser drasticamente reduzida, e a disparada nos preços de combustíveis e fertilizantes, devido às sanções aplicadas à Rússia, pressiona os custos alimentares. Os custos crescentes estão estimulando alguns países a adiarem importações, buscar novos fornecedores ou reduzir os estoques locais, embora isso não seja uma solução a longo prazo, disse Erin Collier, economista da FAO.