O Globo, n 32.387, 09/04/2022. Política, p. 11
Um representante da música popular na ABL
Silvio Essinger
Gilberto Gil recita poema ao tomar posse, lembra que já tratou a Academia com ironia e, em discurso, diz que a instituição representa 'a instância maior que legitima e consagra de forma perene a atividade de um escritor ou criador de cultura' no Brasil
Foi inevitável, para o cantor e compositor Gilberto Gil, na noite de sua posse na Academia Brasileira de Letras, lembrar da capa de seu LP tropicalista de 1968, em que aparece envergando um fardão. Um poema, escrito especialmente para o evento, foi recitado por ele ontem na cerimônia na ABL como uma tentativa de conciliação entre os dois momentos na vida do artista baiano de 79 anos:
— Eu mesmo, nos meus tempos de aventuras / cheguei a envergar um garboso fardão/ vestido então como ironia dura / a fantasia pura da ilusão! / juntava-me, naquele instante, aos muitos / que alfinetavam a Instituição / mal sabia eu quais os intuitos / do destino astuto a interrogação. Um amigo lembrou-me outro dia / que as ironias sempre trazem seu revés / papéis trocados, eis aqui, vida vadia: / fardão custoso, bordado a ouro, vistoso, / me revestindo da cabeça aos pés.
No início de seu discurso, Gil ressaltou o fato de ter chegado, no limiar dos seus 80 anos, à casa onde já estiveram tantos escritores de sua admiração na condição de primeiro representante da música popular do Brasil a ser eleito para a instituição.
— Entre tantas honrarias que a vida, generosamente, me proporcionou, essa tem para mim uma dimensão especial, não só porque aqui é a Casa de Machado de Assis, um escritor universal, e afrodescendente como eu, mas também porque a ABL, fundada em 20 de julho de 1897, representa, mesmo para quem a critica, a instância maior, que legitima e consagra de forma perene a atividade de um escritor ou criador de cultura em nosso país —disse.
Gil disse que, até recentemente, não havia pensado em concorrer a uma cadeira da ABL, mas afirmou que colaboraram para isso circunstâncias atuais como conflitos ideológicos em redes sociais e a necessidade de um “debate civilizatório”: “E eu gostaria, aqui, de colaborar para o debate, em prol da cultura e da justiça”.
—Até quando o Brasil será o “país do futuro” de Stefan Zweig? — perguntou. — Participei de movimentos culturais como a Tropicália, que continua dando frutos por aí. Tive grandes êxitos e alegrias nesta vida. Mas também fundas tristezas, a maior e a mais dolorosa perda de meu filho Pedro Gil (morto em 1989, num acidente automobilístico) .Mas não desanimo, porque é preciso resistir sempre.
Gil disse apostar na esperança e pediu permissão para citar versos de um dos seus maiores sucessos, “Luar”, como “Se a noite inventa a escuridão / a luz inventa o luar”.
Em seu discurso, além dos ocupantes anteriores da cadeira que passa a ocupar, Gil saudou os acadêmicos, os amigos, a família (em especial a mulher, Flora) e seus pais, a professora primária Claudina e o médico José Gil Moreira.
No discurso com que recebeu o cantor e compositor na ABL, o acadêmico Antonio Carlos Secchin disse que a casa é não apenas de Machado de Assis, mas de José do Patrocínio, Dom Silvério Gomes Pimenta, Pereira da Silva, João do Rio, Domício Proença Filho e de tantos que na história da Academia marcaram a herança da diversidade a para a cultura e as letras do país.
— A perspectiva de Gil, ampla, ecumênica, dissolve hierarquias e congrega alteridades —disse.
Para o presidente da ABL, Merval Pereira, a Academia “recebe com alegria o grande poeta Gilberto Gil, que representa a cultura popular brasileira de maneira sublime, e a cultura afro-brasileira como parte dela”:
— Gilberto Gil, além do mais, foi ministro da Cultura, podendo dar contribuições importantes no trabalho que a ABL desenvolve na defesa da língua e da literatura nacional. Sua presença na Casa de Machado de Assis expande, portanto, nossa abrangência cultural, nossa diversidade de representações.
Poeta e letrista de canções, o acadêmico Geraldo Carneiro festejou a eleição:
—A entrada de Gil na ABL é uma celebração da vida e da poesia traduzidas em música. Para a acadêmica Rosiska Darcy, a chegada de Gil a ABL “é de imensa importância, assim como foi a de Fernanda Montenegro”:
— A música popular acolhe grandes poetas de língua portuguesa, Gil é um poeta de excelência e, por isso, seu lugar é na ABL.