O Globo, n 32.386, 08/04/2022. Mundo, p. 16

Mos­cou dri­bla san­ções e aumenta expor­ta­ção de ener­gia



Com petróleo e gás ainda fora das punições, Europa incrementou importações após início da guerra; russos oferecem desconto

Enquanto a Europa se prepara para se somar aos Estados Unidos e atingir o Kremlin com sanções mais duras como punição pela guerra na Ucrânia, há muitos sinais de que a Rússia encontrou maneiras de fortalecer a sua economia. As remessas de petróleo russo Sokol do Extremo Oriente do país se esgotaram para o próximo mês, e várias empresas da China usaram moeda chinesa para comprar carvão russo em março. Os fluxos de gás da Rússia para a Europa aumentaram desde a invasão de 24 de fevereiro. Esses fluxos não estão sujeitos a sanções.

A Bloomberg Economics espera que a Rússia fature cerca de US $320 bilhões exportando energia este ano, um aumento de mais de um terço em relação a 2021. O rublo já se recuperou em relação ao dólar e retomou o valor pré-guerra.

A capacidade da Rússia de manter os recursos da energia entrando e de fortalecer a sua moeda frustra os líderes ocidentais e dão ao presidente Vladimir Putin uma vitória doméstica, mesmo com o país cada vez mais isolado e os militares russos se retirando de partes da Ucrânia. Nesta semana, os EUA alertaram a Índia para não se alinhar muito com Moscou, o que mostra uma consciência das limitações das sanções em um mundo que tem sido tão dependente do petróleo, do gás e de outras commodities russas.

ABRINDO NOVOS MERCADOS

Enquanto a Rússia se reagrupa para lançar uma nova ofensiva no Leste da Ucrânia, a China prepara-se para receber as primeiras remessas de commodities de Moscou pagas em yuans desde que vários bancos russos foram cortados do sistema financeiro internacional.

O petróleo russo, que normalmente iria para refinarias na Europa ou nos EUA, está indo para a Ásia, onde os compradores, sobretudo na Índia, aproveitam-se de grandes descontos. O fornecimento de gás natural da Rússia —que, como o petróleo, ainda não foi sancionado pela UE — continua normal, enquanto a Europa enfrenta uma crise de custos de energia que tem levado os governos a pensarem duas vezes antes de tomar qualquer ação que possa fazer com que os preços subam ainda mais.

A Europa depende da Rússia para obter cerca de 40% de seu gás. Quando a guerra começou, o salto nos preços fez com que fosse mais barato para as concessionárias europeias encomendar mais suprimentos russos sob contratos de longo prazo do que comprar o combustível nos centros de produção do continente. Como resultado, os pedidos da Europa por gás russo aumentaram, ajudando a exportadora estatal russa Gazprom a aumentar as suas vendas diárias para os principais mercados estrangeiros em 17% em março.

As receitas de exportação são o que “a máquina militar da Rússia exige” para continuar sua guerra contra a Ucrânia, segundo a Chacom o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, que aponta o dedo contra a Hungria por sua disposição de aceitar as demandas da Rússia e pagar pela energia em rublos.

Ainda assim, não é como se a economia da Rússia não estivesse sofrendo. Empresas estrangeiras estão abandonando o país, e o desemprego deve mais do que dobrar em relação ao primeiro trimestre. A taxa deve passar de 9% pela primeira vez em mais de uma década, segundo algumas estimativas.