O Globo, n 32.386, 08/04/2022. Brasil, p. 09
Chefe do Fundo diz que encontrou pastores quatro vezes
“Faziam alguma fala, alguma oração", diz Ponte a senadores sobre papel de Gilmar e Arilton em eventos realizados no MEC
O presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Marcelo Lopes da Ponte, afirmou ontem à Comissão de Educação do Senado que esteve apenas quatro vezes em compromissos de agenda do Ministério da Educação com os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, acusados por prefeitos de pedirem propina para liberar verbas da pasta. As acusações levaram à saída de Milton Ribeiro do MEC.
Ponte foi ao Senado dar esclarecimentos sobre as denúncias, reforçadas na terça-feira por três de cinco prefeitos ouvidos também pela comissão. Também convidados, Gilson e Arilton avisaram aos senadores que não iriam.
—Faziam alguma fala, alguma oração —disse Ponte, ao ser perguntado sobre o papel dos dois religiosos nestas agendas, enquanto defendia o ex-ministro. — Acredito que terceiros usaram o nome dele (Ribeiro) e o meu para se gabaritar e fazer eventualmente lobby sem a nossa autorização.
Segundo Ponte, nenhum encontro que teve com prefeitos foi feito a pedido de Gilson e Arilton. Ele acrescentou que suspendeu os processos de liberação de recursos dos municípios envolvidos nas denúncias até que a apuração da Controladoria Geral da União sobre o caso seja concluída.
Os senadores questionaram o repasse de R$ 26 milhões para compra de kits de robótica para escolas sem água e internet. O caso foi revelado ontem pelo jornal Folha de S. Paulo. Ponte afirmou que as licitações são feitas pelos municípios e todos os repasses que saíram do FNDE atendem a critérios técnicos.
—Esses municípios preferiram kit robótica à aquisição de carteiras? — questionou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).
—Possivelmente tiveram indicações de recursos para essa ação. Indicações parlamentares —respondeu.
Ponte também argumentou que o FNDE tomou providências para corrigir os valores de pregão de compra de ônibus escolares um mês antes das denúncias de sobrepreço serem publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo o jornal, no entanto, a alteração foi feita somente após o caso ser revelado.
No pregão, a autarquia poderia gastar R$ 2,045 bilhões com a compra, cerca de R$ 732 milhões a mais que o recomendado, de acordo com relatório da área técnica da fundação. O pregão foi aberto na terça-feira com correção do valor, totalizando cerca de R$ 1,5 bilhão. O Tribunal de Contas da União apura o caso.
—O valor final do pregão foi resultado de pesquisa de preços conforme prevista em norma do Ministério da Economia —afirmou.