Valor Econômico, v. 23. n. 5706, 10/03/2023, Opinião, A20
BC monitora aperto no crédito, mas não vê crise
O risco de crédito tende a crescer se houver “frustração substancial do desempenho da atividade econômica”, mas por enquanto não há nada que se assemelhe a uma crise aguda nos canais de irrigação de recursos para a economia, concluiu o Comitê de Estabilidade (Comef) do Banco Central. A avaliação do BC é feita mais do outro lado do balcão, ou seja, do impacto sobre os bancos de problemas de inadimplência de pessoas físicas e jurídicas. Desse ponto de vista, não há com o que se preocupar, a menos que o crescimento previsto para o ano se transforme em uma grande recessão, o que não é o cenário mais provável até agora.
O peso do tombo dado pelas Americanas no mercado, que teve impacto importante nas provisões de créditos duvidosos dos bancos, reduziu a rentabilidade das instituições e já foi praticamente absorvido, segundo o BC. Mesmo que o caso da empresa do varejo contagiasse toda a cadeia de produção e fornecimento, um cenário considerado extremo pelo BC, “o impacto consolidado é insignificante e não se verificaria desenquadramento de capital em qualquer instituição financeira”.
Não há asfixia na oferta de crédito para os tomadores, apesar de as instituições financeiras terem redobrado a cautela nos últimos meses. “O apetite ao risco na concessão de crédito às famílias e às empresas de menor porte apresentou redução, porém permanece elevado”, avalia o Comef. Nas modalidades mais arriscadas do sistema de empréstimos, como cartão de crédito e crédito não consignado, as concessões continuam elevadas, o que, se não traz problemas de curto prazo, mas pode sinalizar dificuldades no médio prazo. As empresas de menor porte viram uma desaceleração na oferta de recursos, embora isso ainda não seja qualitativamente suficiente para caracterizar uma “alteração relevante nos critérios de concessão”, segundo o BC.
Com os pedidos de recuperação judicial de grandes empresas, fato que o BC não menciona, mas alude a ele, houve deterioração dos preços de ativos no mercado de capitais, o que aumentou sua volatilidade, os spreads e a aversão ao risco. Esses efeitos, mais o da redução do crescimento do crédito, no entanto, “não representam preocupação no médio prazo, embora existam incertezas a serem acompanhadas”, segundo o BC.
Há desaceleração evidente em várias modalidades, mas, no caso das empresas, a redução foi “marginal”. A válvula complementar do mercado de capitais para várias formas de financiamento das empresas não se fechou, e, mesmo com menor fluxo, “se mantém como fonte relevante, principalmente para as grandes empresas”.
O comércio da região Sudeste tem sido particularmente atingido pela retração de vendas, acentuada no quarto trimestre. mostra outro relatório do BC, o Boletim Regional. “Apesar do resultado positivo no ano, houve perda de ritmo em todos os setores no segundo semestre, indicando arrefecimento no início de 2023”, aponta o BC. O comércio ampliado na região caiu 1,4% em 2022. A performance da indústria do Sudeste foi medíocre, com exceção da produção de petróleo e derivados. Houve queda forte no último trimestre, e o nível de dezembro “foi o mais baixo desde julho de 2020” na região.
Ainda que o caso Americanas não tenha relação com o aperto monetário, mas, muito provavelmente, com fraudes, o impacto de sua crise potencializou vulnerabilidades conjunturais das empresas varejistas, as mais afetadas pelos efeitos cumulativos das altas de juros. Isso foi mais verdadeiro para a economia paulista que para a fluminense e a mineira.
A perspectiva do BC é que, com o aumento da inadimplência, maior comprometimento com dívidas da renda familiar e menor capacidade de pagamento das micro e pequenas empresas, e de algumas de grande porte, o risco de crédito “deve permanecer elevado no médio prazo”. Por isso, o aperto nos critérios de concessão, para o BC, tende a diminuir o ritmo de evolução dos ativos problemáticos.
Uma crise de crédito generalizada estaria ainda fora do horizonte de curto prazo. Nessas circunstâncias, a pressão baseada em uma suposta ameaça de quebra geral de empresas para que os juros sejam reduzidos antes do previsto, ou seja, no primeiro trimestre, tem poucas chances de prosperar. Mas um mergulho na recessão pode mudar esse quadro. Os efeitos do aperto monetário, para o BC, são esses mesmos.