O Globo, n 32.387, 09/04/2022. Política, p. 08

PF acusa Ciro Nogueira de corrupção e lavagem de dinheiro

Aguirre Talento e Mariana Muniz


Segundo relatório encaminhado ao STF, ministro recebeu propina da J&F
A Polícia Federal concluiu que o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, recebeu propina do grupo J&F e cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O relatório final da investigação foi enviado ontem ao Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa de Nogueira, presidente licenciado do PP, nega qualquer irregularidade.

Agora, o STF deve enviar o material para o procurador geral da República, Augusto Aras, definir se apresenta denúncia contra ou se arquiva o caso.

A PF também diz ver indícios de crimes de Gustavo Lima, irmão de Ciro Nogueira; Edinho Silva, então tesoureiro da campanha do PT e atual prefeito de Araraquara (SP); Joesley Batista e Ricardo Saud, ambos executivos da J&F à época.

No relatório, a Polícia Federal conclui que Joesley, por solicitação de Edinho, “auxiliado por Ricardo Saud”, fez repasses de vantagens indevidas para Nogueira “visando a garantir o apoio do Partido Progressista às eleições de Dilma Roussef, em 2014”.

Por isso, os investigadores atribuíram a Edinho, que atualmente está na précampanha do ex-presidente Lula, o crime de oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público. Ele nega.

“Parte da vantagem indevida foi encaminhada ao Partido Progressista, por determinação de Ciro Nogueira Lima Filho, por intermédio de doação eleitoral oficial, como consta nos recibos da prestação de campanha. Outra parte, cerca de R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais), foi repassada em espécie, por intermédio do Supermercado Comercial Carvalho, para Gustavo e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira, que se incumbiu da tarefa de pegar o dinheiro e repassar para Ciro Nogueira”, diz a PF no relatório encaminhado à Corte.

A investigação teve início com a delação premiada dos executivos do grupo J&F, mas a Polícia Federal aponta no relatório que obteve provas independentes que corroboram os relatos.

“Joesley Mendonça Batista, por solicitação de Edson Antônio Edinho Silva e auxiliado por Ricardo Saud, fez repasses de vantagens indevidas para Ciro Nogueira Lima Filho, visando a garantir o apoio do Partido Progressista às eleições da presidente Dilma Rousseff, no ano de 2014. Parte da vantagem indevida foi encaminhada ao Partido Progressista,por determinação de Ciro Nogueira Lima Filho, por intermédio de doação eleitoral oficial, como consta nos recibos da prestação de campanha. Outra parte, cerca de R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) foi repassado em espécie, por intermédio do Supermercado ComercialCarvalho, para Gustavo e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira, que se incumbiu da tarefa de pegar o dinheiro e repassar para Ciro Nogueira ”, diz a conclusão do inquérito.

Em nota, a defesa de Nogueira disse “estranhar” o relatório da PF, pois, segundo ela, a conclusão é totalmente baseada somente em delações que não são corroboradas com nenhuma prova externa. A defesa diz ainda que o conteúdo das delações não se sustenta.

“A defesa tem absoluta confiança que o tempo das delações sem nenhuma fundamentação já está devidamente superado pelas decisões independentes do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal”, afirmou ainda o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.