Correio Braziliense, n. 22751, 05/07/2025. Política, p. 4
Lula sobre ONU: “insignificante”
Victor Correia, Fernanda Strickland
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teceu críticas à Organização das Nações Unidas (ONU) pela falta de capacidade de lidar com conflitos mundiais. Ao comentar sobre a guerra entre Israel e Palestina, o chefe do Executivo disse que o mundo está “carente de lideranças políticas” e que a instituição “nunca foi tão insignificante”, como é atualmente. A declaração foi dada durante a 10ª reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco do Brics, no Rio de Janeiro.
Segundo ele, a ONU, que criou o Estado de Israel, não consegue criar um Estado Palestino, nem fechar acordo parra encerrar o “o genocídio do exército israelense” na Faixa de Gaza. “Não é capaz de fazer um acordo de paz para que o genocídio do exército israelense continue matando mulheres e crianças inocentes”, completou.
O petista falou após a presidente do NDB, Dilma Rousseff. Ele enalteceu o banco como exemplo de financiamento sustentável, e apontou a falta de compromisso dos países ricos em custear medidas de combate às mudanças climáticas. “O nosso problema não é nem econômico, é político. Há muito tempo eu não via o mundo carente de lideranças políticas como nós temos hoje. Há muito tempo, não via nossa ONU tão insignificante como ela está hoje”, criticou o presidente.
Lula reclamou que os países ricos tenham se comprometido, em 2009, a financiar US$ 100 bilhões para os países menos desenvolvidos para ações de combate às mudanças climáticas, mas nunca pagaram o valor. “Esse ano já é necessário US$ 1,6 trilhão para que a gente possa cumprir os compromissos climáticos de não permitir que o planeta se aqueça a mais de um grau e meio. Esse é o desafio de todo o mundo, e não há como fugir dele”, disse.
O chefe do Planalto destacou a importância do debate sobre uma nova moeda de comércio. O presidente alertou que, sem mudanças, “vamos terminar o século 21 igual a gente terminou o século 20, e isso não será benéfico para a humanidade”.
Defendeu, então, a criação de “uma nova fórmula para mostrarmos ao mundo que um outro mundo é possível, uma outra realidade de vida é possível”, associando essa transformação à defesa da democracia e do multilateralismo.
Mudança
A presidente do NDB, Dilma Rousseff, defendeu um novo modelo de cooperação internacional. Para ela, a criação do banco do Brics foi a declaração de que o Sul Global deixaria de ser “apenas receptor passivo de modelos de crescimento impostos, para tornar-se arquiteto do seu próprio futuro”. Ela destacou que a instituição nasceu com a missão de financiar infraestrutura e modernização sem impor modelos uniformes, priorizando as realidades locais e respeitando as es colhas nacionais.
Dilma alertou para o agravamento das crises globais desde a fundação do banco: “O mundo está mais fragmentado, mais desigual e mais exposto a crises sobrepostas: climáticas, econômicas e geopolíticas”. A presidente do NDB criticou o uso crescente de sanções, tarifas e restrições financeiras como instrumentos de pressão política e criticou a manutenção de um sistema financeiro internacional “profundamente assimétrico”.
Em uma década de existência, o NDB financiou 120 projetos com investimento de US$ 40 bilhões em setores incluindo infraestrutura, energia limpa, água e saneamento. No Brasil, foram 20 trabalhos no valor de US$ 2,5 bilhões.