O Globo, n 32.387, 09/04/2022. Economia, p. 15

ESCALADA DE PREÇOS

Carolina Nalin


IPCA tem maior alta para março desde 1994, antes do Plano Real

A inflação acelerou em março e chegou a 1,62%. Trata-se da maior taxa para o mês desde 1994, quando atingiu 42,75%, antes da implementação do Plano Real, que entrou em vigor em julho daquele ano. É também a maior taxa mensal registrada no país desde janeiro de 2003 (2,25%). O resultado do IPCA, índice oficial de inflação, superou as projeções de analistas, que previam alta de 1,28%. A escalada dos preços no mês passado foi puxada por itens como gasolina, diesel e gás de cozinha, afetados pelo reajuste anunciado pela Petrobras em 11 de março. Com a pressão nos itens que compõem o orçamento do brasileiro, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 11,3%, consolidando um período de sete meses seguidos com taxa em um ano nos dois dígitos.

—Foi uma alta disseminada nos preços. Vários alimentos sofreram uma pressão inflacionária. Isso aconteceu por questões específicas de cada alimento, principalmente fatores climáticos, mas também está relacionado ao custo do frete. O aumento nos preços dos combustíveis acaba refletindo em outros produtos da economia, entre eles, os alimentos — analisa Pedro Kislanov, gerente do IPCA.

PRESSÃO DE COMBUSTÍVEIS

Oito dos nove grupos pesquisados pelo IBGE tiveram alta de preço. Transportes e alimentos responderam por 72% da variação da inflação.

Em Transportes, a alta foi puxada, principalmente, pelo aumento nos preços dos combustíveis, com destaque para a gasolina, que subiu 6,95%. —Houve altas nos preços do gás veicular (5,29%), do etanol (3,02%) e do óleo diesel (13,65%). Além dos combustíveis, outros componentes ajudam a explicar a alta nesse grupo, como o transporte por aplicativo (7,98%) e o conserto de automóvel (1,47%). Nos transportes públicos, tivemos reajustes nas passagens dos ônibus urbanos em Curitiba, São Luís, Recife e Belém — detalha Kislanov.

O grupo Habitação avançou 1,15% em razão do aumento de 6,57% do gás de botijão. A alta de 1,08% da energia elétrica também contribuiu para o resultado do grupo. No mês passado, os clientes residenciais da Light, no Rio, tiveram aumento de 15,53% na tarifa, enquanto os da Enel, que atende Niterói, Região dos Lagos e Norte Fluminense, tiveram reajuste de 17,39%.

SELIC E IPCA MAIORES

Diante desse quadro, economistas já revisam suas projeções para o IPCA de 2022 para um patamar mais próximo de 8% do que de 7%, ainda mais distante do centro da meta de inflação para este ano, de 3,5%. Além disso, esperam que o Banco Central seja obrigado a aplicar uma dose maior de aumento dos juros para corrigir as expectativas em relação ao comportamento dos preços no próximo ano. Fábio Romão, economista da LCA Consultores, afirma que sua projeção de inflação foi revista de 7,5% para 8% após o IPCA de março.

— Considero taxas mais altas de combustíveis e a alimentação mais pressionada. Temos perspectiva de nova alta importante para bens industriais no IPCA. Mesmo com esse alívio do [corte no] IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), isso não chegou ao consumidor. As pressões estão espraiadas — diz Romão, que prevê a inflação dos alimentos batendo dois dígitos este ano.

O banco JPMorgan vê a inflação encerrando o ano em 7,6%, ante estimativa anterior de 7,1%. Já a projeção para o IPCA em 2023 passou de 4% para 4,2%, em razão da inércia inflacionária. Em relatório, Cassiana Fernandez e Vinicius Moreira disseram que o resultado de ontem indica “que o Banco Central continuará o ciclo de aperto além de maio, apesar da mensagem do Comitê de Política Monetária (Copom) de que a última alta aconteça na próxima reunião.” Para os economistas, a aceleração da inflação é fator de preocupação, pois contamina as expectativas para 2023, o que faz com que o que se imaginava ser um aumento transitório se torne algo mais duradouro, em razão dos mecanismos de indexação da economia. “Há um risco crescente de que os mecanismos de fixação de preços e salários ampliem a inércia inflacionária”, sinalizou Alberto Ramos, diretor de Macroeconomia do Goldman Sachs para a América Latina, que defende que o cenário requer uma calibragem conservadora da política monetária. Com estimativa de que o ciclo de alta na Selic se encerre com taxa de 14% ao ano, os economistas Solange Srour, Lucas Vilela e Rafael Castilho, do Credit Suisse, afirmam que só não revisaram a previsão do IPCA de 7,8% para 2022 porque a surpresa com a inflação de março deverá ser compensada pela recente queda nos preços do petróleo.

“A inércia no Brasil aumenta com o aumento da inflação atual”, disseram, em relatório. Sérgio Vale, economista da MB Associados, vê mais chance de o BC elevar a Selic para 13,5% ao ano, ante estimativa anterior de 13%: — Essa inflação está muito preocupante e deve chegar a 12% no acumulado em 12 meses até abril. Para chegar ao fim do ano com inflação de 7,8%, como projetamos, é preciso ter uma média extremamente baixa de maio até o fim do ano.