O Globo, n 32.387, 09/04/2022. Política, p. 06

Alckmin, de rival do PT a “companheiro” e Vice de Lula

Sérgio Roxo


PSB indica formalmente ex-tucano para compor a chapa petista; partido também contribuirá com programa de governo

O PSB formalizou ontem, em uma carta dirigida ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a indicação do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin para vice da chapa do petista na corrida pelo Palácio do Planalto. Adversários em campanhas passadas, os dois ficaram lado a lado em um evento e exaltaram que o momento é de “somar esforços”. Nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro ironizou a indicação.

O diretório nacional do PT deve aprovar a indicação de Alckmin para vice em reunião, que foi antecipada do próximo dia 14 para o dia 13. No dia 30, o PT realizará, em São Paulo, um evento de lançamento da pré-candidatura de Lula. Temendo problemas com a Justiça eleitoral, o ato está sendo chamado de movimento em apoio à candidatura do petista.

Ontem, Lula lembrou que já foi adversário de integrantes do PSDB, partido ao qual Alckmin foi filiado por 33 anos, e disse que nunca houve desrespeito entre eles. O petista afirmou ainda que, quando ele era presidente, e Alckmin, governador, o tratamento “sempre foi civilizado”.

Na disputa presidencial de 2006, Alckmin comparou Lula a um “ladrão de carros” e disse que no governo federal havia uma “sofisticada organização criminosa”, em referência ao escândalo do mensalão. Já o petista, em 2006, após um debate, disse que se irritava com a “pequenez” do tucano, que havia criticado a compra de um avião pela Presidência. A aliança com Alckmin faz parte da estratégia de Lula para tentar ampliar sua pré-candidatura e atrair o eleitorado de centro. Como reivindicava o PSB, Lula garantiu que o partido aliado terá espaço na elaboração do programa de governo e prometeu diálogo .

O ex-presidente disse ainda que agora ele e Alckmin devem se tratar por “companheiro” e afirmou que a união era um gesto importante para o país.

— Alckmin, você será recebido como um velho companheiro dentro do nosso Partido dos Trabalhadores. Nós estamos dando uma demonstração muito forte ao Brasil —declarou.

Horas depois, o ex-tucano Lula, ex-presidente, em evento que formalizou a indicação do ex-tucano para vice em sua chapa na eleição ao Planalto publicou uma foto nas redes sociais ao lado de Lula com a legenda “simplesmente companheiros”. Durante o evento, em sua fala, Alckmin prometeu união para reconstruir o país, voltou a dizer que a política não é uma arte solitária e criticou o que chamou de corrosão democrática do país.

—É lamentável, presidente Lula, eu que entrei na vida pública como o senhor lá atrás para democratizar o país, nós termos hoje um governo que atenta contra a democracia e atenta contra as instituições.

Bolsonaro foi às redes sociais ironizar a indicação do ex-tucano para vice de Lula. Ele compartilhou publicação feita pelo petista e escreveu: “kkkkkkkkkkkkkkkk”. Na postagem do ex-presidente aparece uma foto de Lula e Alckmin com legenda que diz “a nossa vontade é de reconstruir o Brasil”.

Alckmin deixou o PSDB após ter sido isolado pelo ex-governador de São Paulo João Doria. O projeto inicial de Alckmin era disputar o governo do estado, mas o nome apoiado por Doria foi o de Rodrigo Garcia, seu vice.

Antigo adversário do petista em eleições passadas, Alckmin elogiou ontem o desempenho da economia no governo Lula.

— Presidente Lula, no último ano do seu governo, o PIB brasileiro cresceu 7,5%, esse é um tema. Quero somar os meus esforços para recuperar emprego, renda, combater essa carestia absurda. Para a população poder ter uns dias melhores. Chega de sofrimento para o povo brasileiro.

ALÉM DA ESQUERDA

No documento entregue pelo PSB, o partido diz que deseja contribuir com o programa de governo. “Esta proposição não se limita apenas ao aspecto eleitoral e envolve uma dimensão programática, visto que a composição de uma frente ampla exige a formulação de um programa que corresponda às expectativas das forças que compõem”.

O PSB afirma ainda que o que estará em questão nas eleições de 2022 é “o confronto decisivo entre democracia é autoritarismo”.

O presidente do partido, Carlos Siqueira, afirmou que o programa de governo que será apresentado pela candidatura deve refletir essa realidade e, por isso, não pode ser de esquerda.

— Tem que ter um programa de governo que tenha correspondência com essa proposta político eleitoral. Não pode ser um programa de esquerda, porque se trata de reconquistar a plenitude democrática. É importante que tenhamos um programa amplo que possa comportar os diferentes setores sociais.

Nos próximos dias, o PSB deve indicar os seus representantes que participarão da equipe responsável pelo programa de governo. A coordenação geral será do presidente da Fundação Perseu Abramo, o ex-ministro petista Aloizio Mercadante.