Título: Em 70% dos laudos do IML, presença do álcool
Autor: Rosa Bastos
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/05/2005, Metrópole, p. C1

Médicos e psiquiatras argumentam, contra o consumo exagerado da bebida, com os riscos que a dependência do álcool representa. "Um levantamento feito, em 1996, no Instituto Médico- Legal (IML) de São Paulo, demonstrou que 70% dos laudos cadavéricos acusaram presença de álcool", informa o psiquiatra José Carlos Galduróz. Outro estudo, que analisou 130 processos de homicídio em Curitiba, constatou que 53,3% das vítimas e 58,9% dos autores de crimes ocorridos entre 1990 e 1995 estavam alcoolizados. A bebida está associada também a acidentes de trânsito. "De modo geral, os acidentes de trânsito relacionados à concentração alta de álcool no sangue ocorrem mais freqüentemente à noite e nos fins de semana, atingindo, em sua maioria, homens jovens e solteiros", afirma o pesquisador do Cebrid. Na opinião de Galduróz, é "uma tolice sem tamanho" estimar em 0,6 grama de álcool por litro de sangue a alcoolemia tolerável para um motorista dirigir sem risco. "Isso corresponde a uma latinha de cerveja, que pode comprometer os reflexos de uma pessoa conforme alguns fatores - se está de estômago vazio ou se é homem ou mulher, por exemplo", alerta o médico.

No Rio, o psicanalista Carlos Augusto Mota chama a atenção para os casos de dependência cruzada, o uso simultâneo de álcool com outras substâncias. "Os traficantes dos morros fornecem um envelope de cocaína pelo preço de uma garrafa de cerveja", informa Mota, para mostrar a facilidade com que os adolescentes avançam no consumo das drogas. "Os alunos de colégios, especialmente do ensino público, conseguem driblar as aulas para fumar maconha ou beber na esquina, sem que os pais fiquem sabendo disso." A primeira conseqüência é a queda de rendimento nos estudos.

"Sabemos que o consumo de álcool tem aumentado e, por isso, tomamos medidas preventivas para qualquer comportamento de risco, tanto no caso das drogas como na sexualidade", disse a psicóloga Patrícia Mendes Rubim, coordenadora do serviço de orientação educacional do Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho, zona sul do Rio. Os professores de Química e de Biologia alertam para o perigo do álcool e, nos casos de bebida, os pais são avisados. Nas festas juninas, não se vende mais quentão, porque o álcool foi banido de todas as comemorações da escola.

É preciso ter muita vigilância, observa o psicanalista carioca João Batista Ferreira, cujos filhos estudaram no São Vicente, porque a bebida funciona como expediente automático de auto-afirmação. "Meninos e meninas bebem igual, sem mais diferença entre bebidas fortes e leves, para preencher um vazio que antes se compensava com um ideal político, ideológico ou literário." Como o álcool tem efeito passageiro e artificial, diz o psicanalista, os adolescentes logo buscam outras drogas. "Não é uma escalada obrigatória, mas é bastante comum."

O psicólogo Flávio Veríssimo, de São Paulo, associa o alcoolismo na adolescência a fatores genéticos, ambientais e psicológicos. "Um adolescente que tem alguma predisposição genética pode se tornar alcoolista, quando tem uma condição psíquica fragilizada - frustração, por exemplo - e seus pais são pouco presentes." Como outros profissionais de saúde que estudam o alcoolismo, Veríssimo fala em alcoolista para designar o dependente de álcool, em vez de alcoólatra (aquele que adora álcool), com a justificativa de que, mesmo sem gostar da bebida, o dependente não consegue passar sem ela.